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Sérgio Figueiredo 10 de Fevereiro de 2004 às 14:28

Há fé no Beato

Os empresários deste país só se mobilizam politicamente e em grupo para actos corporativos. Não é de hoje. Tem acontecido. Pelo menos, há cinquenta ou sessenta anos.

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Os empresários deste país só se mobilizam politicamente e em grupo para actos corporativos. Não é de hoje. Tem acontecido. Pelo menos, há cinquenta ou sessenta anos. Este é, portanto, o mais importante dos compromissos que esta “nova geração”, todo este dia reunida no Convento do Beato, tem a obrigação de assumir para com Portugal - o compromisso de que não está ali para resolver os seus problemas, muito menos os seus problemas de curto-prazo.

Não é coisa pouca. Porque isso exige algo que, em três décadas, se transformou numa das maiores raridades do regime democrático: a autonomia empresarial. Decidir sem o poder político.

Mesmo muitos destes homens e mulheres, que vão certamente pedir que o Estado não os proteja, que não hesitam em fazer um discurso politicamente correcto sobre a livre concorrência, são os primeiros a viver de audiências com ministros. Os mais privilegiados conseguem até levar o seu “pendente” directamente a São Bento.

Para quê? O que é que um empresário vai dizer ao primeiro-ministro? E o que está por detrás da sua conversa, se a sua conversa é sobre negócios?

Está, assim, definido o primeiro Compromisso com Portugal: não prestarei vassalagem ao poder político!

O segundo Compromisso com Portugal decorre do primeiro: não pedir que o Estado lhes “dê tempo” para recuperar o atraso. Porque, novamente, o que está por detrás deste pedido? Se a malta está preocupada que a EDP vá parar a mãos espanholas e se as batatas e hortaliças são todas importadas, o que este “pedido de tempo” significa senão o da protecção à ineficiência?

E, vinte anos depois da integração europeia e das privatizações, vinte anos depois de muitos e muitos milhões de fundos comunitários, quem não foi eficiente até hoje como pode garantir que o será amanhã?

Se as nossas empresas são, em geral, ineficientes, é porque alguém não fez bem o seu trabalho. Alguns estão no Beato. Por isso, é sempre bonito ver o “mea culpa” que este Compromisso Portugal certamente paramuitos representa.

Mas, se o que é importante é olhar para a frente, não ficar preso ao passado, então que estes gestores e empresários do topo fixem um outro compromisso com os portugueses.

O terceiro: nós vamos investir dinheiro “fresco”, criar capital novo, o que é aliás coerente com o princípio liberal de “o Estado fora da economia” e com o discurso contra o proteccionismo.

Com estes compromissos, talvez o cidadão comum consiga esclarecer dúvidas antigas: porque o país não se tornou competitivo em vinte anos? porque ainda dependemos dos subsídios dos outros? porque os nossos empresários têm de vender aos estrangeiros?

Questões que desembocam num único e terrível dilema: problema do modelo económico ou falta de capacidade do nosso povo em competir? Será que o modelo se torna inviável sempre que as barreiras à competição desaparecem?

Como é óbvio, a resposta é “não”. Não é uma questão de fé. É de história económica. Não por acaso, o melhor que temos é o que sempre foi obrigado a competir.

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