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Hoje soube-me a pouco

Nas televisões e seus dramas quotidianos, incêndios, desavenças, crimes e outros desastres naturais e artificiais, nunca faltam os depoimentos dos chamados populares. Gente que o acaso fez estar à hora errada no local errado, e assim, indefesa, é apanhada pelos diretos e perguntas triviais do jornalista de serviço.

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O resultado é invariavelmente dececionante. Não tanto porque raramente se acrescenta alguma informação útil, mas sobretudo porque a prestação individual destes figurantes é quase sempre desanimadora. A maioria tem dificuldade em articular um discurso coerente, dar uma opinião fundamentada, enfim, tanta vez, simplesmente dizer alguma coisa que passe das interjeições.

 

Quarenta anos passados do 25 de Abril é frustrante perceber que uma parte considerável da nossa população pouco evoluiu no campo da cultura, da educação, do civismo. Os maiores de 60 anos andaram na escola do fascismo e viveram a miséria da ditadura, mas a maioria dos citados interlocutores das televisões já frequentaram a escola da democracia. A diferença existe, mas não é tão acentuada como se esperaria. O que falhou?

 

A escola democrática não foi capaz de alterar comportamentos e saberes. O meio ambiente e a miséria acabaram por sobrepor-se favorecendo a ignorância e a rotina. Com destaque para a débil situação económica de muitos portugueses que teima em não melhorar. Aliás, com o Governo de Passos Coelho a taxa de pobreza regressou aos 30% da década de 90 do século passado. Começa agora a recuperar, mas muito lentamente. Em suma, um quarto dos portugueses vive na miséria o que os impede de ter uma vida digna e de evoluir nas suas capacidades, cultura e comportamento. Não admira que haja tanto fogo posto, tanto crime idiota e, até, dificuldade em dizer coisa com coisa.

 

O problema não é objetivamente dos pobres. Mas das elites. A estratégia do empobrecimento não é uma ideia original de Passos Coelho, ainda que a tenha aplicado com vigor. Está presente no pensamento dos não-pobres, sobretudo da classe média e ricos. Um país com 30% de pobres dá muito jeito aos ricos e fornece muita limpeza à classe média. Em rigor, os pobres só são chatos quando fazem asneiras. Infelizmente fazem muitas. Mas para isso existem polícias, juízes e cadeias.

 

Nos anos 80 participei num livro coletivo sobre o futuro de Portugal. Dediquei o meu texto à miséria, considerando que era o maior problema do nosso país e que devia concentrar todos os esforços da classe política e da sociedade no seu conjunto. Continuamos na mesma. Pelo menos à esquerda há consciência do problema e vontade de o minimizar. O acordo entre o PS e a sua esquerda só trata praticamente desse aspeto, isto é, reposição do rendimento, aumento das pensões mínimas e do salário mínimo. É muito para a situação económica de Portugal. É imenso quando pensamos que se trata de uma visão diametralmente oposta daquela que vigora em Bruxelas. Mas é pouco, muito pouco, para a necessidade das pessoas e sobretudo para a necessidade do próprio país que, deste modo, desperdiça um quarto da sua população.

 

Vem aí o Orçamento do Estado para 2017. Vai passar nas calmas. Até os sistemáticos anunciadores de catástrofes sabem que o Partido Comunista nunca falta à sua palavra, é aliás o partido mais sério do sistema, e o Bloco é quem mais beneficia com a atual aliança. Quebrá-la seria desbaratar o que já conquistou. Mas será um orçamento frustrante. A erradicação da miséria continua a não ser a prioridade absoluta.

  

Artista Plástico

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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