Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 19 de fevereiro de 2018 às 20:58

Ignorar para repetir

Resta esperar que Costa, com a evidência que lhe é mostrada pelos seus aliados, avance para a segunda posição de Zenha - antes que seja tarde.

A FRASE...

 

"Será o mesmo PS bloquista antes das eleições e o mesmo PS depois dessas eleições. Precisa o país de um bloco central de partidos? Precisa o partido de um bloco central de interesses?"

 

Luís Montenegro, Congresso do PSD, 17 de Fevereiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Sabe-se que quem escolhe ignorar o passado corre o risco de o repetir, mesmo que não queira. É o desfecho inglório que fica reservado a quem julga que está a apresentar uma novidade que não é mais do que a repetição do que já se tentou e falhou.

 

A história das coligações de partidos na democracia portuguesa não pode ignorar o que foi a estratégia do partido-charneira que Salgado Zenha desenhou para o PS, reservando-lhe a função do partido necessário para a formação do poder: não se podia governar sem o PS e, sobretudo, não se podia governar contra o PS. Mas também não se pode ignorar que o mesmo Salgado Zenha, tendo observado os efeitos da sua criação, a quis destruir em 1985, quando se apresentou como candidato presidencial contra o candidato oficialmente apoiado pelo PS. Já era tarde, o que se seguiu foi uma década de domínio do PSD, depois prolongada por uma outra década de governos minoritários do PS (governava negociando os apoios no Parlamento) e governos de coligação do PSD com o CDS (que não podiam governar contra o PS). Até que o PS obteve a sua primeira maioria absoluta, o partido-charneira evoluiu para o partido maioritário que finalmente podia concretizar a sua ideia para Portugal, mas para colapsar na bancarrota e na subordinação da política e da sociedade à economia e às condicionalidades impostas pelos credores.

 

Durante o interregno da troika, o PS (de António José Seguro) teve a oportunidade de construir uma plataforma de convergência estratégica com o PSD e o CDS que pudesse conduzir a fase final do programa de ajustamento e estabelecer as condições orientadoras para a fase seguinte. Não foi essa a escolha do PS, que evoluiu de Seguro para Costa, ficando este na posição que já tinha sido de Zenha - mas agora dependente de uma aliança que é incongruente e não pode estruturar uma convergência estratégica, ocupa o poder, mas não governa. Resta esperar que Costa, com a evidência que lhe é mostrada pelos seus aliados, avance para a segunda posição de Zenha - antes que seja tarde.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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