Daniel Traça
Daniel Traça 21 de agosto de 2019 às 18:45

In memoriam…

Alexandre Soares dos Santos morre com 84 anos, mas com um dos espíritos mais jovens e visionários do nosso país.
Partiu um português melhor. Ficou mais pobre e mais triste o país. Os elogios a Alexandre Soares dos Santos espalharam-se por todos os meios de comunicação, unânimes em reconhecer a liderança, a exigência e a frontalidade de um homem que deixa uma verdadeira instituição nacional no grupo económico que construiu. Um homem que tocou milhares de pessoas pelo cuidado com que se dedicou a cada uma delas.

Alexandre Soares dos Santos foi o primeiro apoiante e o maior inspirador do projeto da Nova School of Business & Economics. Alunos, professores, "staff" e parceiros da Nova SBE do passado, presente e futuro estarão para sempre agradecidos. E teremos, para com a memória dele, uma dívida que exigirá sempre mais de nós. Queremos estar sempre à altura da confiança que nos concedeu. Fica o seu exemplo como inspiração para o que ensinamos.
Paradoxalmente, Alexandre Soares dos Santos desafiou os atavismos lusitanos, afirmando-se sempre, e acima de tudo, como português. Porque fez a diferença? Porque são tão poucos os portugueses capazes de a fazer? Tendo tido algumas oportunidades de conviver com o Senhor Alexandre Soares dos Santos, distinguiria três elementos que o tornaram único.

Em primeiro lugar estão a humildade e a generosidade de pôr a obra e as pessoas que a constituem sempre à frente de si próprio. A sua vida foi dedicada à instituição que estava a construir e isso foi sempre mais importante do que ele próprio. Reza a história que esteve pronto a demitir-se quando as suas decisões não produziram os resultados esperados. Quis proteger a sua empresa de decisões discricionárias, incluindo as suas, e criou estruturas de governação e aconselhamento competentes e independentes. Essa generosidade individual para com as instituições e as pessoas, que é muito maior do que todas as doações que tenha feito, assegurou o crescimento do seu grupo e permite-nos, enquanto portugueses, encarar com otimismo o seu presente e futuro, mesmo na sua ausência.

Em segundo lugar está a consciência da responsabilidade das elites. Se a democracia moderna reconhece direitos e deveres iguais a cada cidadão, materializados no voto universal, o progresso das sociedades humanas dependeu sempre do empenho destas em orientar a sociedade para o desenvolvimento. Esta responsabilidade social é parcialmente de interesse próprio, pois, durante milénios e nas sociedades de sucesso, as elites souberam sempre que uma sociedade que se distingue pelo progresso partilhado é fundamental para o desenvolvimento individual. Quando as mesmas não estiveram à altura desta responsabilidade, as sociedades estagnaram ou implodiram. Alexandre Soares dos Santos tinha desta responsabilidade um sentimento quase visceral e assumiu-a em pleno para si, a sua família e a sua empresa. A frustração era grande para com aqueles que não a assumiam, sobretudo quem queria apenas benefícios a curto prazo ou explorar outros seres humanos.

Em terceiro, e último lugar, está o futurismo do seu pensamento. Todas as conversas com Alexandre Soares dos Santos tinham de ser sobre planos para daqui a anos e décadas. Estou seguro de que, até ao fim, quis saber quais os projetos para o futuro da empresa e das fundações que criou; todas dedicadas a temas que afetam o futuro do país e da humanidade. Com o apoio dado à Nova SBE, quis fazer a diferença relativamente ao desenvolvimento de líderes para Portugal.

A humildade, a responsabilidade e o futurismo são raros na nossa cultura, sobretudo naqueles que conseguem ter sucesso profissional. Portugal é pequeno, as elites pouco numerosas e a vaidade é o passaporte para o reconhecimento social. Alexandre Soares dos Santos sabia que estes eram os atavismos que impediam, e impedem, o progresso do país. Talvez por isso fosse incessantemente exigente com as elites portuguesas.

Alexandre Soares dos Santos morre com 84 anos, mas com um dos espíritos mais jovens e visionários do nosso país. Em homenagem à sua vida e à sua memória ficam as elites do nosso país com uma responsabilidade maior para fazer mais pelo Portugal do futuro. Estou certo de que seria essa a homenagem que teria gostado de receber de todos nós.
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