Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Rui Alpalhão 11 de Julho de 2006 às 13:59

Incumbentland

A primeira pessoa que me falou de incumbents foi, no já longínquo ano de 1984, o Prof. José Manuel Amado da Silva, nas aulas teóricas de Economia Industrial da Licenciatura em Economia na FEUNL, que concluí nesse ano lectivo.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

A primeira pessoa que me falou de incumbents (à época o aportuguesamento incumbente era tão pouco habitual como a discussão de assuntos que envolvessem incumbentes) foi, no já longínquo ano de 1984, o Prof. José Manuel Amado da Silva, nas aulas teóricas de Economia Industrial da Licenciatura em Economia na FEUNL, que concluí nesse ano lectivo. Aulas magistrais no duplo sentido do termo, nas quais não só muito aprendi como fui exposto a parte importante do método que, nos vinte anos de ensino universitário que levo, tenho tentado, dentro dos limites das minhas capacidades, usar com os meus alunos.

À época, os incumbents pareciam não ser da realidade portuguesa, mas antes uma espécie que vivia noutro planeta, onde o Estado regulava mercados em vez de neles intervir. Possuiam, aliás, nome apenas em inglês,  e eram desafiados por outra espécie também com nome em inglês, os entrants. Entre nós tínhamos, pelo contrário, um sector empresarial do Estado, com algumas aberrações academicamente curiosas, nomeadamente um duopólio público na indústria cervejeira (que aliás gerou um artigo, da autoria dos Profs. Amado da Silva e Aníbal Santos, recebido com curiosidade na conferência desse ano da European Association for Research in Industrial Economics). A propósito, registe-se a recente nomeação do Prof. Amado da Silva para a presidência da Anacom, que, além de outros importantes méritos, tem o de representar a indicação para um lugar fundamental de alguém que fala, escreve e ensina sobre regulação há bem mais de vinte anos, e que seguramente não vai aprender on the job. Uma regra aparentemente básica, mas utilizada (infelizmente...) menos vezes do que o que seria óptimo: escolher quem saiba da poda para podador-chefe.

A existência de incumbents é o mais natural possível numa economia de mercado. Os primeiros a chegar a um mercado usufruem muito legitimamente do designado first move advantage: identificam uma oportunidade, assumem riscos, ocupam uma posição valiosa porque criaram valor. É também perfeitamente legítimo que defendam a sua posição, desde que sem outras vantagens que não as decorrentes do seu first move advantage. Essas são merecidas e legítimas, quaisquer outras não só o não só como são gravosas para a economia como um todo.

A economia portuguesa é terra de incumbentes. Aliás, a maior parte das pequenas economias, como a nacional, são-no. Neste como noutros casos, size matters. Nas pequenas economias, os mercados são menos concorrenciais, porque a sua dimensão não permite que muitas empresas atinjam escalas produtivas eficientes. Menores pressões concorrenciais geram rendas (no sentido económico do termo, isto é, lucros acima dos apropriados para compensar a exposição ao risco incorrida), rendas cujos destinatários primaciais são os capitalistas incumbent, mas que podem ser partilhadas com os administradores e os empregados, criando uma intrincada teia de interesses instalados, onde todos os instalados beneficiam. Uns mais, outros menos, porque quem reparte e não fica com a melhor parte, ou é tolo, ou não tem arte. 

Quem não tem espaço nesta equação são os que não estão instalados, e pretendem exercer esforço para mudar de estatuto. Reveladoramente, enquanto os incumbents se fizeram incumbentes, acrescentando um neologismo à já rica língua portuguesa, não se criou nenhum aportuguesamento de entrants. Talvez porque não entram... Não é razoável emitir as tão frequentes lamentações sobre a falta de empreendedorismo entre nós se as iniciativas de entrants  são sufocadas à nascença pelo status quo.

O futuro, no entanto, não é particularmente sombrio. A progressiva e inevitável integração da nossa economia reduz o potencial de rent-seeking paroquial, tende a diminuír a viabilidade da distribuição salomónica de rendas de monopólio pelos interesses instalados e a aumentar a procura por instituições e mecanismos que permitam uma sadia competição pelo capital disponível. Mais dia, menos dia, haverá uma entrada no dicionário para entrante, ou coisa parecida.

Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias