João Carlos Barradas
João Carlos Barradas 19 de março de 2008 às 13:59

Iraque: uma guerra sem norte

A próxima administração norte-americana terá de definir até ao final do primeiro trimestre de 2009 uma nova estratégia para o Médio Oriente, mas alguns objectivos essenciais irão condicionar quaisquer políticas.

Conter o Irão e preservar o entendimento com as monarquias árabes petrolíferas do Golfo prevalecem sobre qualquer outra consideração, mas para Washington isso implica assegurar um Iraque não hostil (ou a neutralização de estados que resultem da sua desagregação) e, consequentemente, uma nova lógica para a guerra que se arrasta há cinco anos.

A previsível instabilidade do Egipto pós-Hosni Mubarak e o conflito israelo-palestiniano (em que entra em jogo outro imperativo norte-americano que passa pela salvaguarda do estado judaico) implicam de forma menos directa com a guerra iraquiana, mas já a sorte da Síria e do Líbano levantam a questão-chave da política a seguir frente ao Irão que confina, ainda, com o arco de crises que vão do Afeganistão ao Paquistão.

O Irão é a questão essencial

A guerra do Iraque transformou-se em grande medida no esforço para conter o Irão e suspender ou desmantelar o programa militar nuclear de Teerão. A guerra de Bush é já outra guerra.

Um fracasso na contenção do Irão teria como consequência imediata uma escalada armamentista do Cairo a Riade e resultaria na falência do Tratado de Não-Proliferação Nuclear.

No desenlace da guerra do Iraque o que mais importa é saber se será possível preservar a integridade do estado e nesta matéria há consenso quanto à necessidade dos Estados Unidos manterem no país contingentes militares acima dos cem mil homens (acrescidos de mais de 50 mil mercenários em empresas de segurança) para evitar uma guerra civil.

Uma eventual desintegração do Iraque criado pelo mandato britânico na Mesopotâmia em 1921 continua a ser uma possibilidade muito crível, mas, além da angústia regional que representaria a independência curda, a emergência de um estado xiita associado ao Irão transforma esta hipótese num pesadelo político para os regimes sunitas e os Estados Unidos.

Uma violência suportável

Apenas uma conjunção irrepetível de factores permitiu uma redução dos níveis de violência que chegaram a causar 65 mortos por dia na sequência do atentado à mesquita dourada de Samarra, em Fevereiro de 2006, para médias de 20 mortes/dia em Janeiro, 26/dia em Fevereiro e 39/dia na primeira metade deste mês. A violência própria de uma guerra civil diminuiu sobretudo a partir do final do Verão passado, mas aparenta ter voltado a aumentar desde o início deste ano.

A adopção de nova estratégia anti-insurreição pelo general David Petraeus, o reforço militar norte-americano de 30 mil homens, o acordo táctico com tribos sunitas à revelia do governo central para obstar à campanha terrorista da al Qaeda, a concretização da limpeza étnica de Bagdade a favor dos xiitas, a trégua do exército do Mahdi do líder xiita Moqtad Al Sadr e a cedência de Bassorá a milícias xiitas por parte da Grã-Bretanha diminuíram os níveis de violência, mas não se concretizaram em consensos políticos.

Medir forças

O Iraque, com os seus 2,5 milhões de deslocados internos e mais de 2 milhões de refugiados nos países vizinhos, subsiste naquilo a que o Pentágono define como níveis de violência suportáveis. Os combatentes medem forças para o próximo confronto.

Os indicadores económicos e sociais continuam a mostrar-se negativos, apesar da diminuição da inflação de 32% em 2006 para 12 % em 2007, e como factor positivo desponta o aumento na produção de petróleo para 2,4 milhões de barris/dia no mês passado, o nível mais alto desde 2003.

Falta combustível, contudo, porque das três maiores refinarias iraquianas saem apenas 700 mil barris/dia (60 mil barris/dia abaixo das necessidades de consumo interno), metade do nível alcançado antes da guerra, e na maior delas, em Baiji, no norte do país, estima-se que um terço da produção acabe desviada para o mercado negro.

A execução orçamental por parte do governo de Bagdade, segundo o relatório trimestral apresentado este mês ao Congresso de Washington pelo Pentágono, registou progressos no ano de 2007, mas, mesmo assim, quedou-se pelos 36 % entre Janeiro e Agosto.

Da leitura do relatório sobressaem, ainda, os custos da corrupção (não contabilizada) e outros indicadores tão negativos como uma produção de electricidade que só satisfaz 43% do consumo.

A legislação negociada entre os partidos xiitas, curdos e sunitas para reintegração na administração de antigos membros do partido Baas de Saddam Hussein ou a partilha de recursos das receitas petrolíferas entre as 18 províncias ainda tem de dar provas de viabilidade efectiva e questões contenciosas como a convocação de eleições provinciais, o estatuto federal do país ou o referendo sobre a eventual integração de Kirkuk no Curdistão iraquiano continuam em suspenso.

A oportunidade para negociações políticas criada pelo esforço militar gizado pelo general Petraeus e a conjunção momentânea de interesses díspares para conter uma escalada na guerra civil por parte de partidos xiitas, reservando-se para próximos combates, curdos, consolidando posições, e sunitas, procurando reduzir perdas inelutáveis, está prestes a esgotar-se.

Na melhor das hipóteses o impasse irá arrastar-se até que John McCain, Barack Obama ou Hillary Clinton assumam uma nova estratégia no Iraque e concebam uma política regional para fazer frente ao Irão.

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