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Labaredas

Sempre me pareceu que a melhor metáfora para descrever a situação que Portugal atravessa é precisamente a do país a arder. Porque está lá tudo. As imagens grandiosas desde logo.

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Enormes línguas de fogo que tudo vão consumindo num misto de beleza e terror e que da maneira mais dramática e teatral nos mostram a extensão e exuberância deste território. Perversamente só a catástrofe ígnea parece ser capaz de revelar a extraordinária natureza que ainda temos, mas que não sabemos amar e muito menos cuidar. Não sei se é isso que excita alguns pirómanos, mas é por demais evidente o fascínio que o fogo exerce sobre todos os que assistem ao vivo e mesmo os que estão sentados em casa. Por uma vez fui testemunha e fiquei impressionado com o som, um monumental uivo selvagem que a floresta faz quando arde e que nos reduz, a nós humanos, à nossa efectiva insignificância. É uma visão à medida do Portugal contemporâneo. País que se emociona mais do que pensa e que a cada esquina chora uma grandiosidade passada, incapaz que se encontra de ver qualquer grandeza no presente e no futuro.

Também nas origens da devastação o retrato é fiel. Tanta palavra, tanta explicação avulsa, tanta acusação, mas ninguém parece ser capaz de definir de forma concisa e rigorosa o porquê de tanto e desenfreado incêndio. Mão criminosa, falta de meios, ausência de planeamento, não explicam tudo e isoladamente não explicam nada. Parece evidente que o pequeno enriquecimento das populações rurais, e acima de tudo o acesso às redes de gás e electricidade, abandonaram a antiga lenha nas matas para pasto das chamas. A pequena melhoria das condições de vida dos mais pobres dos portugueses, associada à incapacidade da administração democrática em prever as suas consequências no tratamento das florestas, foram criando ao longo dos anos extensos cobertos de giestas e ervas que por sua própria vontade se regeneram ardendo. Deixado à sua sorte, mas impedido de se diversificar, o mundo natural imola-se tanto por gosto como por protesto. Outra visão excelente portanto. Também a sociedade portuguesa está cada vez mais entregue à sua sorte, agora que a solidariedade social se tornou residual e que só o sucesso e o dinheiro de uns quantos se tornaram objectivo e destino nacional.

E que dizer do combate aos incêndios. Feito de desorganização e voluntarismo como quase tudo o que por cá se vai fazendo. Basta ver essa corajosa mas desorientada horda de descamisados, onde se juntam bombeiros, mulheres aflitas, velhos e miúdos a correr de um lado para o outro munidos de baldes de plástico e irrisórios gravetos tentando salvar o que já está perdido. É épico, mas bastante patético e triste. É o país que temos, onde sempre parece faltar racionalidade e serenidade o que sobra em improvisação e cabeça perdida.

E por fim os que mandam. Não sendo melhor do que o resto da população, como cabe a uma democracia, da elite dirigente espera-se que não seja pior. Mas os anos que passam e as soluções que tardam demonstram que não tem havido gente e decisão à altura dos eventos. Todos os anos, governo após governo, indistintamente da cor partidária, se repetem as mesmas promessas de remediar no Inverno aquilo que se perdeu no Verão. Nunca acontece. Como se o país, nesta e noutras matérias, fosse uma equação de tal forma complexa e intrincada que não tem solução.

O paralelismo é pois evidente. Portugal arde nas florestas e na sociedade. Por vezes num lento e surdo lume, noutras em grandes labaredas enraivecidas. Ao que parece somos assim. Ora passivos ora exaltados. Mas nunca radicais, ou seja, nunca indo à raiz dos problemas. Pessoalmente que certamente por defeito sempre procuro nas coisas, mesmo nas piores, um lado positivo, estranho que tanto incêndio não tenha já dado origem a uma ciência do fogo, com investigadores, universidades e empresas a tentar inovar em meios e técnicas. Saber que em terreno tão fértil para experimentação poderia ser desenvolvido e exportado para todo o mundo. Mas isto sou eu a pensar numa tarde particularmente quente e quando se registam de norte a sul 51 fogos activos e incontroláveis.

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