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Joaquim Aguiar 28 de Dezembro de 2015 às 19:29

Legitimidade e fragmentação

Este foi o ano em que tudo mudou na política – mas para que o essencial fique na mesma, sem mais crescimento, sem melhor emprego, sem maior igualdade. O casamento de conveniência trará a infelicidade para os noivos.

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A FRASE...

 

"A facilidade com que Costa o fez indicia que houve uma ruptura mais profunda e que o secretário-geral dos socialistas apenas surfou a onda que já estava em formação."

São José Almeida, "O ano em que tudo mudou", Público, 27 de Dezembro de 2015.

 

A ANÁLISE...

Os contos de fadas terminam com os heróis casados e felizes para todo o sempre. Nos contos reais, a felicidade depende dos resultados que obtiverem e estes dependem do que for o campo de possibilidades dessa época. As possibilidades no presente não são favoráveis à felicidade dos noivos.

 

As sociedades maduras desenvolvidas, no processo da globalização competitiva, estão presas nas condições da "estagnação secular", com baixo crescimento potencial, elevado endividamento por efeito dos défices orçamentais (despesas com as políticas públicas) e das balanças correntes (assimetrias de competitividade), sem vitalidade demográfica (com envelhecimento e com as novas gerações mais pequenas do que as gerações anteriores), com liquidez que não se traduz em investimento por muito baixa que seja a taxa de juro nominal – e como a taxa de inflação é muito baixa ou até negativa, não se atinge a taxa de juro real que estimularia o investimento nas actuais condições de avaliação do risco dos mercados. Este não foi o ano em que tudo mudou na economia, antes se reforçaram as relações entre o fraco crescimento e o fraco investimento, prosseguindo a acumulação de endividamento.

 

Mas este foi o ano em que tudo mudou nos eleitorados, com a fragmentação dos blocos eleitorais, deixando todos partidos sem bases de legitimidade própria para estabelecerem uma estratégia para o exercício do poder. Nenhum partido pode invocar a sua legitimidade para interpretar o que é o interesse nacional. Este foi o ano em que tudo mudou na política – mas para que o essencial fique na mesma, sem mais crescimento, sem melhor emprego, sem maior igualdade. O casamento de conveniência trará a infelicidade para os noivos. Depois disso, será possível voltar a pensar a estratégia, sem contos de fadas.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

 

Joaquim Aguiar

 

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