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Baptista Bastos - Cronista b.bastos@netcabo.pt 17 de Fevereiro de 2012 às 11:35

Lembrança da Grécia como pretexto

Estamos na sala, sentados e a conversar, a Isaura e eu. Estamos à espera do neto e a manhã é clara, cheia de sol e, até, um pouco jubilosa, se me faço entender.

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Estamos na sala, sentados e a conversar, a Isaura e eu. Estamos à espera do neto e a manhã é clara, cheia de sol e, até, um pouco jubilosa, se me faço entender. Quero escrever um texto sobre a Grécia, e tenho uma ideia muito precisa de como o começar. Vivi na Grécia quando era rapaz, e ficou-me para sempre o povo e a sua bonomia, os perfumes da terra antiga e a beleza das mulheres. As mulheres de Atenas, valentes e grandiosas, tema de uma das mais lindas canções de Chico Buarque de Holanda, essas mulheres que tão semelhantes são com as nossas, em grandeza, coragem e sacrifício.

O sol ilumina a sala e afaga os milhares de livros nas estantes. A Isaura diz-me que a troika está aí para nos avaliar. Acrescenta que esta presença a incomoda como uma humilhação. Os gregos, comenta, também se devem sentir muito humilhados. A sala serve para tudo o que vive nesta casa: aqui se comem as refeições; aqui, neste canto, é onde escrevo; aqui é onde lemos, vemos televisão, conversamos; aqui é onde o nosso neto brinca, sorri, grita e procura o que quer que procure.

Quando vivi na Grécia, o mundo estava cheio de ditadores de todo o cariz e estilo. As coisas eram assim mesmo; porém, havia gente, muita gente que resistia, inclusive com armas na mão. Escrevi sobre a Grécia, para "O Século", jornal onde trabalhava, e também alinhei uns episódios num romance, "O Secreto Adeus", recorrendo a lembranças e a espantos. Eu era muito novo e tudo, no mundo, me espantava, porque eu tinha a idade do mundo e o mundo estava sempre à minha espera, novo, novo como as flores na primavera.

A Isaura diz-me agora: devias escrever alguma coisa sobre a Grécia actual. E eu: tenho umas ideias para isso, até porque estou cansado de ler e de ouvir tolices sobre. Esperamos o nosso neto, que tem um ano, e ela preparou o espaço onde ele costuma brincar. Ensinaram-no a imitar a minha voz velada, e o puto, assim que me vê, começa logo a imitação. Quando o não faz, estranho; mas logo a seguir ele olha-me, sorri, e imita. Gosto de escrever com o miúdo por perto. Não me incomodam, pelo contrário, a sua voz e os seus protestos. Trabalhei muito nos jornais, os jornais foram a minha vida, e habituei-me a escrever com todos os barulhos e ruídos à volta. Abstraio-me dos sons, é o que é, nada de extraordinário, e batuco prosa como se estivesse a conversar com alguém que ninguém vê mas eu sei que ali está. Não são coisas de velho, tomem nota, são coisas de vida, da existência das próprias coisas.

A Isaura comenta que as televisões deprimem toda a gente. É só miséria, é só desemprego, é só pessoas cheias de dificuldades. Olha, há dias, lá, em baixo, onde havia uma casa de roupas, passou a ser uma casa de penhores. De penhores? De penhores, como antigamente. Estamos a voltar para trás, como antigamente. Nunca vi uma coisa assim. Julgava que as coisas iriam melhorar, mas, pelos vistos, tudo piora. E os estabelecimentos que estão a fechar? Há dias, precisei de ir à retrosaria, comprar umas lãs, queria fazer um casaquinho em tricô, para o menino. Bati com a cara na porta: já não há retrosaria; aliás, já não há nada. E a latoaria também fechou. Está tudo a fechar. Até tenho receio de andar na rua, a certas horas; está tudo tão vazio. Penhores, penhores, anúncios na televisão de compra de ouro.

Talvez comece o artigo sobre a Grécia citando um livro de André Kedros, "Um Navio dentro da Cidade", que li há muitos anos, romance muito belo, aliás. Tenho de procurar o livro, nestas montanhas acumuladas na estante. Qualquer dia nem me posso mexer, com tantos livros, revistas e papéis à volta. Conheci André Kedros em Lisboa, por intermédio do Fernando Namora, que o acolhera com estima. O grego era um homem melancólico e triste, como o Namora. A Agustina escreveu, no "Diário de Lisboa" uma nota lindíssima sobre o Namora, quando ele morreu, e dizia assim: vai faltar-nos o rio triste do seu olhar. Ninguém sabe, hoje, quem foi André Kedros. Já ninguém recorda o Namora e, até mesmo, a Agustina, que está viva e não é lembrada como deve ser.

Tocam à porta. É a Margarida e o Filipe com o filho, o Francisco. A manhã tem sol mas também tem frio. Ó neto do meu coração!, digo eu. Abraça-me e abraço-o muito; beijo-o muitas vezes.
Há anos, anos e anos estive na Grécia, onde vivi durante quase três meses. Tinha vinte e quatro anos e o mundo tinha a mesma idade. Seguiria, depois, para a Ásia Menor, num rude avião militar, onde também ia Paul Chaize do "Fígaro". O mundo era hostil à liberdade, e vários ditadores de escalão mantinham o terror como norma. A Grécia…


b.bastos@netcabo.pt
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