Miguel Pina e Cunha
Miguel Pina e Cunha 02 de agosto de 2012 às 23:30

Líderes infiltrados - na realidade das suas empresas

Saem do gabinete e misturam-se. Podem não precisar de se infiltrar, mas compreendem o poder do contacto direto com as "tropas". Sem este toque do real, o seu mundo organizacional torna-se um universo de fantasia, porventura melhor que a realidade, mas infelizmente desmentido por ela
Pode parecer estranho às mentes mais convencionais, mas a SIC Radical tem oferecido programas de entretenimento com assinalável capacidade de reflexão sobre liderança e gestão em geral. Um programa muito rico em lições gestionárias foi "Kitchen Nightmares", do "chef" Gordon Ramsay. Outro bom "show", mais recente, é "Undercover Boss", em português "O Colega Misterioso".

Os dois programas oferecem, de algum modo, visões opostas da realidade. Sobre Ramsay, basta dizer que oferece uma mistura de culinária e consultoria. Ramsay faz de consultor de restaurantes em dificuldades que se recusam, na maioria dos casos, a enfrentar a realidade. O "show" é interessante por isso mesmo: por mostrar como por vezes os líderes de negócios em declínio preferem afundar-se com as suas convicções intactas, do que mudar enquanto têm tempo para isso.

"Undercover Boss" é sobre o processo contrário: como os líderes podem aprender mais sobre a sua organização e o respetivo negócio misturando-se com as pessoas que nela trabalham e de quem são patrões. A ideia é essa: por uns dias o CEO ou um gestor de topo, no caso de o CEO ser muito conhecido, adota uma nova identidade e "infiltra-se" na sua própria organização.

A mecânica dos episódios é por vezes algo repetitiva, há uma componente emocional que roça a lamechice, mas a moral da história é invariavelmente a mesma: conhecer a linha da frente ajuda a desenvolver humildade e a contrariar a hubris. As boas organizações são-no graças aos muitos heróis desconhecidos que fazem as coisas acontecer no dia a dia. Esse é o segredo dos bons colaboradores: fazerem destes gestos de cidadania comportamentos diários e normais. As más organizações, pelo contrário, têm tarefeiros, que fazem o seu trabalho sem empenho. Como tal, compete aos colaboradores perceberem o seu trabalho como um exercício de cidadania organizacional e aos líderes contactarem com a realidade para reconhecer quem merece reconhecimento. A importância desta comunicação com a linha da frente é aliás reconhecida num recente artigo de Watkins sobre a transição de gestor para líder. Os bons líderes gostam de ter algum contacto com as linhas da frente. Saem do gabinete e misturam-se. Podem não precisar de se infiltrar, mas compreendem o poder do contacto direto com a "tropa". Sem este toque do real, o seu mundo organizacional torna-se um universo de fantasia, porventura melhor do que a realidade, mas infelizmente desmentido por ela.

Para explorar mais o assunto:
Watkins, M.D. (2012). How managers become leaders. Harvard Business Review, June, 65-72.

Professor catedrático, Faculdade de Economia, Universidade Nova de Lisboa