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José Maria Brandão de Brito 28 de Fevereiro de 2007 às 13:59

Lisboa

Aquando das últimas eleições autárquicas, Lisboa perdeu uma grande oportunidade para eleger um bom presidente da Câmara: alguém com capacidade para mobilizar a cidade, e os cidadãos que a habitam ou nela trabalham, no sentido de a fazer entrar, decididame

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Uma Lisboa preparada para afrontar os desafios actuais, capaz de questionar e reencontrar a sua vocação, de reforçar o seu prestígio agora como cidade que se vira e olha de frente para o futuro.

Enganaram-se os partidos nas suas escolhas, porque todos compreendemos agora que os candidatos que apoiaram não eram o melhor que tinham para oferecer à cidade, para a fazer prosseguir um processo de renovação interrompido quatro anos atrás. Lisboa é uma capital da União Europeia e por isso, se mais não fosse, pelo passado histórico e pela forma como tem de agarrar o futuro, precisa de quem seja capaz de a conduzir pelos caminhos da modernidade e de a transformar numa grande cidade cosmopolita e actual: atractiva, competitiva, dinâmica e inovadora.

A crise da Câmara de Lisboa e a instabilidade que lá se vive estão expostas à vista de todos como uma ferida gangrenada para a qual não se vislumbra cicatrização sem se cortar o mal pela raiz: esta Câmara, depois de todos os sórdidos episódios conhecidos, não tem condições, nem éticas nem políticas, para continuar responsável pela governação da capital do País.

Crise que desde o primeiro dia se anunciava e se previa: pelos resultados eleitorais – os lisboetas tiveram a lucidez para não dar a maioria a nenhum dos candidatos – e depois (ou antes?) a natureza e o comportamento desses candidatos.

Ruben de Carvalho, que todos reconhecerão como um homem de cultura, não só não concorria para vencer como as suas ideias vão sendo impiedosamente tornadas obsoletas pelo tempo; de resto, é acima de tudo um organizador e não um estratega. Maria José Nogueira Pinto, pese as qualidades profissionais que se lhe conheciam e que voltou a demonstrar na campanha, não tinha uma estrutura de apoio suficientemente forte e consistente para lhe sustentar as ideias e apoiar a sua concretização. José Sá Fernandes também não estava lá para ganhar: a sua campanha anunciava, apenas e tem sido bastante, que se constituiria como uma espécie de vigilante privilegiado, promotor de boas causas e de boas práticas, enfim uma espécie de provedor dos interesses munícipes.

Sobram Manuel Maria Carrilho e Carmona Rodrigues. Mostraram ser pouco. Ser de menos em relação ao que a cidade necessitava e merecia. O que, perplexos, vimos e ouvimos nas últimas eleições, na rua e nos meios de comunicação social, foi a performance de dois professores universitários, pertencentes a uma restrita elite do País, demonstrarem em perfeita sintonia, que sobre Lisboa, a capital a cuja câmara concorriam, não conseguiam alinhar uma ideia, traçar um plano, e nos intervalos das insinuações e das caneladas, apenas alinhavam discursos sem conteúdo, só lugares comuns ou projectos extravagantes e inconsequentes, porque nem se davam ao trabalho de ler os "dossiers" que as suas esforçadas equipas lhes prepararam.

Aliás, lembremo-nos de que Carrilho começou a alienar alguns apoios importantes ainda a luta não tinha começado e que Carmona Rodrigues acabou a campanha como a tinha começado: sem uma ideia para Lisboa e sem discurso; utilizou o seu simpático ar de pai de família para conquistar eleitores, mas tratou a cidade com uma infantilidade tocante e uma ignorância chocante, como se se tratasse de um brinquedo, uma cidade lego: um jardim aqui, um parque ali, um túnel mais acima? simplificando e reduzindo tudo ao nível do técnico, incapaz de ver a floresta por detrás da árvore, sem estrutura cultural nem dimensão política.

Neste dia em que escrevo, é difícil prever o desenlace para o imbróglio criado, ou seja, como se irão resolver os problemas que, literalmente, paralisam a gestão da nossa principal autarquia; apenas e para já três certezas: a primeira é a de que a situação está fora de controlo e que os até agora protagonistas ainda não perceberam que estão a mais, que a questão lhes fugiu das mãos: que fazem, cada vez mais, parte do problema e nunca da solução; a segunda, releva do facto de que sobre as principais forças políticas recair a responsabilidade acrescida de fazer as escolhas adequadas a que se eximiram há perto de três anos; finalmente, a terceira tem a ver com a necessidade de Lisboa não poder perder nova oportunidade e que é tempo de procurar recuperar o tempo perdido: o mundo não pára nem faz compassos de espera ao ritmo das vacilações dos órgãos de decisão dos partidos portugueses (continua).

Nota: A segunda parte deste artigo será publicado nesta coluna na próxima semana.

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