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Paulo Ferreira pferreira@mediafin.pt 01 de Setembro de 2005 às 14:17

Lógicas invertidas

As mais fortes e certeiras críticas à candidatura presidencial de Mário Soares foram já feitas pelo próprio. “basta!”, pronunciado por duas vezes no jantar dos seus 80 anos, ficou como símbolo de um conjunto de razões invocadas para abandonar definitivame

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As mais fortes e certeiras críticas à candidatura presidencial de Mário Soares foram já feitas pelo próprio. "basta!", pronunciado por duas vezes no jantar dos seus 80 anos, ficou como símbolo de um conjunto de razões invocadas para abandonar definitivamente a vida partidária e o exercício de cargos públicos. Razões entendíveis, óbvias, dentro do mais linear bom senso e da lógica da vida.

Foi apenas há nove meses. Com o país em plena crise de modelo de desenvolvimento, sem saber o que pode esperar do futuro, com Santana Lopes a chefiar o Governo, Mário Soares reflectiu e concluiu que não tinha mais contributos a dar.

O que de importante mudou então, nos últimos oito meses, que obrigue Soares a este exercício da mais descarada falta de coerência?

O país não mudou. Mudou apenas o governo. E numa perspectiva socialista, mudou para melhor. Nunca o PS tinha tido uma maioria absoluta para governar.

De igual modo, nada de substancial se alterou na Europa ou no mundo. Os dramas da União continuam intactos e Bush continua a governar a América.

Os desafios, as dificuldades e as esperanças são hoje as mesmas que já conhecíamos no ano passado.

Se não é pelo país e pelo contributo que pensa ainda poder dar-lhe, então só motivações estritamente pessoais e/ou partidárias fazem Soares avançar.

No plano pessoal, é a perspectiva de um ajuste de contas com Cavaco Silva, o confronto directo com aquele que foi o seu mais duro e duradouro adversário político que faz mover Mário Soares. E no plano partidário, começou a tornar-se insuportável a falta de uma candidatura ganhadora.

Mas estas são as mais fracas motivações que podem estar na origem de uma candidatura que não se limita a marcar presença e tem reais possibilidades de vitória.

Umas são demasiado pessoais e entram no campo da estrita vaidade individual. As outras acentuam uma lógica de "partidocracia" que já é exagerada em Portugal.

Inverteu-se toda a lógica. Mário Soares tornou irrelevante saber o que é que um novo mandato seu pode dar ao país. Mas é bem claro o que é que o país pode dar a Soares e ao espaço partidário que representa.

Mário Soares já não tem nada que provar ao país. Ele é o principal arquitecto da democracia e da integração de Portugal na Europa. Tem um percurso e uma obra notáveis, que não são beliscadas pelas críticas que sempre podem ser-lhe feitas.

Este regresso, tardio e com demasiadas intenções egoístas, corre o risco de transformar-se numa nódoa pessoal e num equívoco para o país.

Com o debate ideológico já feito, com um modelo de sociedade que é mais decidido em Bruxelas do que em Lisboa, o trabalho que há a fazer é sobretudo executivo.

Soares tem poucos meses para mostrar que contributo pode dar nesta fase decisiva e para fazer esquecer a falta de coerência desta candidatura à luz das suas próprias palavras. Não é uma tarefa fácil.

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