Londres sobreviverá ao Brexit?

De repente, todo o mundo ama aqueles mestres do universo que quase destruíram o sistema financeiro global em 2008. O que vai volta.

O Brexit colocou um gato faminto entre os pombos financeiros da city de Londres. Ninguém sabe ainda que tipo de acesso as empresas sediadas no Reino Unido terão ao mercado financeiro único da União Europeia, e o anúncio da primeira-ministra Theresa May de eleições antecipadas a 8 de Junho ainda nublou mais a imagem, pelo menos a curto prazo. Mas há um pressuposto crescente de que as coisas não podem ficar na mesma, e que haverá um preço por deixar a UE.

 

Assim, as empresas de serviços financeiros do Reino Unido, especialmente aquelas que escolheram Londres como sede europeia precisamente para garantir o acesso a todo o mercado da UE a partir de um local, e estão a rever as suas opções. Na verdade, os reguladores estão a obrigá-las a fazê-lo, questionando como irão garantir a continuidade do serviço aos seus clientes no caso de um "hard" Brexit. (O governo de May prefere falar de um "clean" Brexit, mas isso é semântica).

 

Centros europeus rivais têm visto uma oportunidade para recuperar alguns desses negócios para o continente (ou para a Irlanda). Outros governos ressentem-se, há muito, do domínio de Londres. Foi irritante ter de reconhecer que o principal centro de negociação de instrumentos denominados em euros se situava fora da Zona Euro.

 

Há apenas alguns anos, o Banco Central Europeu tentou insistir para que a compensação dos instrumentos do euro ocorresse dentro da sua jurisdição, mas foi impedido de o fazer por uma decisão do Tribunal de Justiça Europeu. É um tanto irónico: retirar o Reino Unido da jurisdição do TJE é agora um dos principais objectivos de May.

 

Assim, delegação após delegação de ministros, mayors e variados lobistas de centros financeiros foram enchendo os melhores hotéis de Londres e dando um bem-vindo impulso ao negócio dos restaurantes de topo. Luxemburgo, Frankfurt, Dublin e outros têm feito apresentações brilhantes sobre as vantagens competitivas das suas cidades em Londres: custos de propriedade mais baixos, impostos sobre as empresas mais baixos (que parece plausível quando dito com sotaque irlandês), restaurantes com estrelas Michelin e concessionários da Porsche - todos os serviços essenciais que compõem um centro financeiro vibrante.

 

Algumas destas apresentações motivaram alguns sorrisos irónicos. François Hollande, foi eleito com base na alegação de que o mundo das altas finanças era o seu inimigo. No entanto, o presidente da região de Paris prometeu recentemente um "tapete vermelho, branco e azul" para qualquer gestor de hedge funds que compre um bilhete Eurostar de ida para a Gare du Nord - uma referência farpada à promessa do antigo primeiro-ministro britânico David Cameron de estender um tapete vermelho para os banqueiros franceses que fogem de impostos proibitivos, greves e leis trabalhistas restritivas.

 

De repente, todo o mundo ama aqueles mestres do universo que quase destruíram o sistema financeiro global em 2008. O que vai volta.

 

Toda esta actividade promocional levantou novamente a questão sobre que características deve ter um centro financeiro de sucesso. A pergunta foi feita muitas vezes, e consultorias de gestão ganharam bom dinheiro oferecendo as suas respostas patenteadas.

 

Um estudo pré-crise da McKinsey para o antigo mayor de Nova Iorque, Michael Bloomberg, recomendou a cópia do sistema regulatório de Londres, que explodiu logo depois. A revisão dos funcionários de Hong Kong das suas próprias regulamentações, realizada para identificar formas de aumentar a atractividade da cidade para empresas internacionais, descobriu que o que as empresas realmente queriam era ar mais limpo e mais escolas internacionais. Nenhum dos itens está dentro da jurisdição da autoridade monetária (nem mesmo, no caso da poluição do ar, do governo de Hong Kong).

 

Muitas das pesquisas que perguntam às empresas por que motivo escolhem um determinado local produzem respostas essencialmente circulares. Dizem que estão lá porque outras empresas também estão, e podem, portanto, fazer negócios facilmente com as suas principais contrapartes. Há, no entanto, alguns temas consistentes.

 

As empresas estrangeiras gostam de pensar que são tratadas da mesma forma que os concorrentes nacionais. Portanto, a regulamentação com motivação política é um repelente. Elas também querem um sistema judicial independente que defenda os direitos de propriedade. E querem acesso a pessoal qualificado.

 

Nestas medidas, Londres e Nova Iorque continuam com bom desempenho. O último Índice de Centros Financeiros Globais, publicado no mês passado pelo Z/Yen, mostra que Londres permanece no topo do ranking, ligeiramente à frente de Nova Iorque.

 

Mas os ratings de ambas caíram acentuadamente no ano passado, e a diferença entre elas e a terceira classificada, Singapura, desceu de 30 pontos, no ano passado, para 20 pontos este ano. Na verdade, quase todos os centros asiáticos elevaram as suas classificações, com Pequim a subir mais rápido, passando de 26º para 16 º lugar.

 

Se olharmos especificamente para a Europa, o único outro centro financeiro no top 20 global é o Luxemburgo, na 18º posição, seis lugares abaixo do ano passado. Frankfurt, no 23º lugar, caiu quatro posições este ano, e Paris ficou presa em 29º nas últimas pesquisas. Assim, Londres tem uma enorme vantagem na Europa.

 

Será o Brexit suficiente para alterar este quadro de forma radical? Continua a ser difícil dizer. Sobre os factores-chave para as empresas, não é provável que o sistema de regulação de Londres, indiferente a nacionalidades, mude; nem o sistema judicial. Portanto, essas vantagens devem ser sustentadas.

 

O factor decisivo será provavelmente a disponibilidade de pessoal qualificado. As empresas financeiras com sede em Londres estão habituadas a poder recrutar em toda a UE; na verdade, as autoridades britânicas têm sido flexíveis em relação a trabalhadores extracomunitários. Como na Europa a maioria dos aspirantes a profissionais financeiros falam bem inglês, as empresas têm muitos candidatos à sua disposição.

 

Se essa disponibilidade sobreviverá ao Brexit é a grande questão política para a city de Londres nas negociações que se seguem. O próximo primeiro-ministro britânico, que talvez seja May, terá de dar uma boa resposta, ou Londres não continuará no topo do ranking por muito mais tempo.

 

Howard Davies é chairman do Royal Bank of Scotland.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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