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Negócios negocios@negocios.pt 12 de Dezembro de 2002 às 18:28

Luís Todo Bom: «Os bons, os maus e os outros»

As empresas portuguesas são, administradas por gestores bons, razoáveis e maus seguindo, infelizmente, uma curva de distribuição não-normal.

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A «Empresa», em geral, pública ou privada, é uma entidade maltratada em Portugal. Tem um estatuto de dignidade normalmente inferior a outras entidades da sociedade portuguesa. Não é considerada, como devia ser, um local privilegiado de realização do Homem, em ambiente saudável de organização que potencia os valores intelectuais e éticos, o talento e a capacidade de aquisição e aplicação de conhecimentos de cada um.

É esta, em minha opinião, a razão essencial pela qual a gestão das empresas portuguesas é, normalmente, tratada com alguma superficialidade e ausência de preocupação por parte dos accionistas, com especial gravidade no caso do Estado, sobre as qualificações académicas e profissionais de quem administra as entidades responsáveis pela criação de riqueza no nosso país.

Existe a ideia de que qualquer pessoa, com um mínimo de presença, facilidade de expressão e bom senso está habilitada para gerir uma empresa.

As empresas portuguesas são, assim, administradas por gestores bons, razoáveis e maus seguindo, infelizmente, uma curva de distribuição não-normal. Acresce ainda que se verificam três fenómenos de constrangimento, que dificultam a alteração do panorama descrito:

1. As entidades colectivas da sociedade civil que deveriam estimular os movimentos correctivos no tecido económico, em especial os sindicatos e as associações empresariais são frágeis, conservadoras e previsíveis.

2. Os mecanismos de avaliação qualitativa e quantitativa da actividade dos gestores não estão regulados para a excelência.

3. A imprensa económica especializada não constitui um elemento de pressão tecnicamente sofisticado para essa mesma excelência.

Nestas condições o actual paradigma da gestão empresarial em Portugal conduz às seguintes categorias de gestores:

Os «maus» ou mais exactamente os «mauzões» ou seja, os gestores exigentes, rigorosos, com boa preparação teórica, conhecedores do negócio, prudentes no tratamento do risco empresarial associados às acções de diversificação fora do «core-business» e de internacionalização em mercados de risco elevado, que trabalham com os seus directores todo o dia e todos os dias e que controlam permanentemente os custos e os recursos.

Os «bons» ou mais exactamente os «porreirões» ou seja, os gestores simpáticos, superficiais, com uma preparação teórica mediana, pouco exigentes, pouco rigorosos, marginalmente conhecedores do negócio, sem preocupações pela estabilidade financeira e de recursos das empresas, que investem sem critérios teóricos adequados para estarem sempre a viajar e a fazer negócios, que aceitam todas as «cunhas» para a empresa, com um frágil acompanhamento dos custos e controlo dos recursos e que passam mais tempo nos almoços e nas viagens do que a trabalhar.

Os «outros» ou mais exactamente «os moldáveis», que constituem uma classe alargada, menos característica, que se aproximam mais de um ou outro estilo de gestão em função da respectiva liderança.

Temos assim na classe dos gestores portugueses, «os bons» os «maus» e os «outros».

O resultado destas aproximações é conhecido: os «maus» criam empresas sólidas, estáveis, lucrativas, onde o ajustamento dos recursos em especial dos recursos humanos se faz com tempo, prudência e equilíbrio.

Os «bons» destroem empresas sólidas, aumentando o endividamento, reduzindo ou eliminando os lucros, criando, a prazo, situações de obrigatoriedade de redução violenta de recursos, com alienação de activos e despedimentos volumosos. Nos últimos seis anos, grande número de empresas portuguesas foram geridas por «porreirões». O resultado está à vista.

Os trabalhadores dessas empresas têm razão para estarem preocupados. Mas deviam ter começado a preocupar-se há muito tempo atrás.

Era importante, para a pequena e frágil economia portuguesa que esta experiência recente não se repetisse.

Mas para que tal se verifique é fundamental elevar o estatuto da «Empresa» em Portugal. É importante dignificá-la. É necessário não mais permitir que amadores continuem a fazer experiências com as Empresas portuguesas. É essencial interiorizarmos a facto de que a qualidade de vida de todos nós depende desse estatuto de dignidade da «Empresa Portuguesa».

Luís Todo Bom

Inspector-geral do Grupo PT e Prof. Aux. Convidado do ISCTE

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