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Maduros para o pior

Um estudo recente revela que só 56% dos portugueses considera a democracia como o melhor sistema de organização política da sociedade.

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Um estudo recente revela que só 56% dos portugueses considera a democracia como o melhor sistema de organização política da sociedade. Pior ainda, 15% dos inquiridos estariam mesmo dispostos a trocar a democracia por uma ditadura.

É claro que estes estudos refletem mais a conjuntura do que ideias bem ponderadas. O protesto exprime-se frequentemente através de um despropósito qualquer. Mas não deixa de ser sintomático que uma quantidade apreciável de cidadãos encare formas autoritárias de poder como uma solução viável para a presente situação.

Também recentemente as reações à "gaffe" de Cavaco Silva dão bem conta do nível de desprestígio a que chegou a classe política. Cavaco, naturalmente, sempre teve apreciadores e detratores. A maioria destes, da esquerda e de alguma direita chique, não o apreciam por razões de ideologia e de "status" social. Recorde-se o epíteto de gasolineiro de Boliqueime como era tratado pela direita, pretensiosamente, fina. Mas o sucedido nestes últimos dias vai muito mais longe. O Presidente, que sempre foi uma figura relativamente protegida da crítica pública, tem sido enxovalhado e ridicularizado como nunca nenhum outro o foi antes.

Manifestações jocosas, apupos, incontáveis desenhos e comentários insultuosos na "net", emergiram subitamente com uma violência e tenacidade nunca vistos. A última trincheira da já fraca respeitabilidade da classe política foi derrubada. Belém tombou.

A maior responsabilidade é contudo do próprio. Cavaco nunca teve jeito, nem cultura, para tiradas graciosas. Sempre que o tentou deu-se mal. Querendo mostrar que a crise afeta todos, ao ponto de ter hoje supostamente um rendimento inferior às suas necessidades, acabou por ofender a maioria dos portugueses que vivem praticamente ou mesmo na miséria. Quis dar um exemplo pessoal, imaginando que seria mais humano e próximo, mas resultou arrogante e socialmente insensível. Quando se fala muito, por vezes sai mesmo asneira da grossa.

A sua capacidade de reconhecimento do erro também não é brilhante. Afinal trata-se de um homem que nunca se engana, nem tem dúvidas. Um simples pedido de desculpa poderia ter tido alguma eficácia, já as explicações só têm infestado ainda mais o ambiente.

Por outro lado, estamos perante um sinal dos tempos, com as suas redes sociais que evoluem como labaredas numa floresta seca e onde a liberdade de expressão tantas vezes se confunde com o vitupério e a ordinarice. Mas, tudo por junto, o mal está feito e é irreversível. Cavaco Silva nunca mais será visto como Presidente de todos os portugueses e alguém acima das tricas partidárias e do penoso dia-a-dia.

Vamos assim caminhando para um contexto em que o pior pode aparecer a qualquer momento. Refiro a possibilidade de surgir um qualquer demagogo de extrema-direita que, com o seu discurso de ódio, consiga cativar os eleitores. Nada que não venha acontecendo por essa Europa.

Para já, os fascistas portugueses ainda não passaram da fase das botas e da simbologia nazi. Mas, tal como se viu por exemplo na Holanda ou na Áustria, um dia destes alguém munido de uma sopa ideológica que combine o patriotismo, o racismo, o ataque aos imigrantes que "tiram o trabalho" aos nacionais, a denúncia da corrupção nos políticos, um apelo à ordem e até algum anticapitalismo de ocasião, pode facilmente surgir na cena política e atrair muita gente. Tanto mais que, paradoxalmente, a extrema-esquerda tem preparado o terreno. O nacionalismo, a rejeição da Europa, a desvalorização da democracia e da política, a violência verbal, tão frequentes nos discursos do Partido Comunista e do Bloco de Esquerda, vão criando as bases psicológicas e culturais para uma adesão às ideias da direita antidemocrática. Viu-se em França com a transferência direta de muitos votos do PC francês para Le Pen.

Portugal vai ficando maduro para a pior das soluções. A mesma democracia que garante liberdade, pode retirá-la. É bom que se pense nisto quando se confunde a crítica necessária, e mesmo veemente e indignada sempre que oportuna, com este bota-abaixismo acéfalo e alarve que nos vai minando.



Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

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