José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 16 de abril de 2018 às 21:51

Magnanimidade à chinesa 

Não é magnanimidade, muito menos capitulação: é estratégia, retirada do mais puro cânone chinês.

A FRASE...

 

"A mentalidade da Guerra Fria e jogos de soma nula são ideias obsoletas."

 

Xi Jinping, Presidente da R. P. da China, 10 de abril de 2018

 

A ANÁLISE...

 

No discurso que proferiu no Fórum Boao - o "Davos asiático" - o Presidente chinês deu uma monumental bofetada de luva branca no Presidente americano. Trump fala em restringir o comércio internacional, Xi em promover a globalização. Trump impõe medidas unilaterais, Xi apela ao diálogo. Trump expõe uma visão isolacionistas, Xi propõe cooperação e interdependência. Enquanto Trump gere o presente com vista a prolongar um passado glorioso, Xi gere o presente a preparar um futuro que se afigura grandioso para o Império do Meio. O voo da águia tornou-se lento e esforçado, enquanto o dragão plana com elegância nos céus da ordem económica mundial que se vem formando desde a aurora do século XXI. Como é da natureza dos impérios ascender e decair, os EUA jogam contra a história, mas a China joga a favor. Para os EUA é preciso que tudo mude para que tudo possa ficar na mesma. Em contraste, a China tornou-se mestre do "status quo".

 

Os EUA iniciaram uma guerra comercial contra a China no pressuposto de que seria fácil vencer. Nesta matéria, Trump tem razão no sentido em que uma redução dos défices comerciais americanos afeta o setor industrial chinês, mas não tem razão no sentido em que não se apercebe de que se a China deixar de gerar superavits face aos EUA deixa também de ter necessidade de comprar dívida pública norte-americana, numa altura em que a administração Trump está a criar enormes défices orçamentais. Quem os irá financiar?

 

Mas a China não quer o colapso dos EUA, quer a lenta dissolução da hegemonia americana. Foi imbuído deste espírito que Xi Jinping respondeu às investidas de Trump anunciando a abertura do mercado chinês às exportações e capital estrangeiro, liberalizando o sistema financeiro e prometendo um controlo sobre os abusos em matéria de propriedade intelectual. Não é magnanimidade, muito menos capitulação: é estratégia, retirada do mais puro cânone chinês. Porque como  aconselhava o lendário estratego militar Sun Tzu, devemos simular inferioridade e encorajar a arrogância do inimigo.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

pub