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Sérgio Figueiredo 13 de Dezembro de 2005 às 13:59

Magnânimo e visionário

Uma tremenda estupidez, dizer que um investimento público só se justifica no caso em que o retorno estimado cobre com forte probabilidade os recursos consumidos. Nem é preciso filosofar muito sobre o ensaio da cegueira financista. Basta descer ao rio Tejo

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A maior lixeira da maior cidade do país deu lugar a equipamentos sociais de indiscutível qualidade. Onde antes se despejava toda a espécie de porcaria, hoje há vida cultural, jardins, actividade comercial, há espaços de lazer.

Os depósitos de armas e os solos contaminados pela petrolífera de então deram lugar a construção nova, prédios de habitação caríssima. Muita construção, demasiados prédios, enfim, betão e mais betão, um verdadeiro crime urbanístico.

Uma densidade imobiliária daquelas tem sempre associada dois tipos de situações: autarcas corruptos e falta de planeamento. A aberração da Expo tem uma explicação mais sofisticada: é que foi planeada.

Os decisores de então permitiram aqueles índices de construção por ser a única forma de rentabilizar os novos «ex-libiris» da capital. E assim esconderam o Oceanário ou a Estação fabulosa de Calatrava numa selva de pedra, porque alguém se comprometeu em fechar contas com «saldo zero».

Serve este exemplo para evitar o mesmo equívoco no TGV. Há decisões com forte impacto numa economia, como a construção de uma infra-estrutura pesada, que são demasiado sérias para as deixarem nas mãos dos economistas.

Evidentemente que uma ligação ferroviária de alta velocidade não se pode «pagar a si própria». E a medida da sua importância não se resume a uma estimativa de «break-even».

Ao mobilizar esta soma descomunal de recursos, afinal muito mais de 7 mil milhões de euros, um país está sobretudo a decidir sobre a competitividade do seu território a 30, 40 ou 50 anos.

E, como se trata de dotar a economia de uma ligação à Europa que factualmente ela não dispõe, esses recursos são essencialmente públicos.

Portanto, antes de julgar o TGV, há que enquadrá-lo na reflexão sobre o nosso modelo económico futuro. E aceitar que a mobilidade é factor decisivo para o sucesso de um país geograficamente afastado do centro. E, por fim, assumir que o turismo é uma actividade estratégica.

Agora imagine o que seria Paris, a maior cidade turística do mundo sem o seu principal símbolo. Ou, pior, o que seria a Torre Eiffel e a quantidade de arranha-céus ali à volta se o pressuposto da sua construção tivesse sido o do Oceanário de Lisboa.

Quanto vale um TGV para o Portugal dos nossos filhos? É essa a questão de fundo que o Governo deve hoje responder. E o problema dos «recursos» é seguramente o mais importante, porque implica opções.

Ao eleger o comboio rápido como prioritário, o país abdica de muita coisa que faltará às próximas gerações. A responsabilidade que Sócrates assume é tão séria que o coloca na História: Duarte Pacheco, o visionário do século XXI? ou D. João V, o novo magnânimo que levou o Estado à falência?

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