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Luísa Bessa lbessa@mediafin.pt 06 de Maio de 2008 às 11:33

Mais ricos e mais pobres

Há anos que se debate se a globalização tem contribuído para aumentar ou diminuir a desigualdade de rendimentos. É inequívoco que a abertura dos mercados tem tirado da pobreza milhões de pessoas dos países em desenvolvimento, sobretudo da Índia e da China

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Há anos que se debate se a globalização tem contribuído para aumentar ou diminuir a desigualdade de rendimentos. É inequívoco que a abertura dos mercados tem tirado da pobreza milhões de pessoas dos países em desenvolvimento, sobretudo da Índia e da China, mas não só.

São esses os principais ganhadores com a globalização e as suas populações estão entre os principais beneficiados. Uma mais-valia para toda a humanidade, que aparece agora inesperadamente em risco pela subida dos preços dos alimentos.

Mas é o capital o maior ganhador. Sem pátria e sem cor, desloca-se para onde os factores são mais competitivos, fazendo histórias de sucesso num lado e deixando um rasto de vazio no outro, sobretudo em regiões com dificuldade de substituir as actividades que saem por outras onde possam ser mais competitivas. O que explica que os países desenvolvidos sejam penalizados pela globalização, mas as suas grandes empresas não.

A China é um caso particular em tudo isto. Sendo desde há anos o principal financiador dos Estados Unidos está hoje em condições de passar a um estádio superior. Há capitais chineses em quantidade, disponíveis para comprar empresas americanas, tirando partido da desvalorização do dólar, como o fizeram os japoneses nos anos 80, o que está a fazer soar as campainhas de alarme em Washington. Se aí vêm medidas proteccionistas ou outro tipo de reacção, é o que ainda está em aberto e que só poderá ficar esclarecido depois das eleições presidenciais de Novembro.

Outro ponto assente é o crescimento das desigualdades dentro dos países, notavelmente nos Estados Unidos, tendência em que Portugal não é excepção, com o trabalho em níveis historicamente baixos na distribuição da riqueza. Nos Estados Unidos continua a ser notícia as estatísticas da desigualdade salarial, com o disparo das remunerações dos gestores de topo e a estagnação, ou mesmo o recuo em termos reais dos salários médios.

O tema tem dado pano para mangas. Os defensores do mercado argumentam que as retribuições dos gestores se justificam pela necessidade de reter o talento e de encontrar as pessoas certas para cumprirem objectivos cada vez mais ambiciosos de remuneração do capital investido. São argumentos válidos. Mas, na prática, apesar dos progressos em termos de regras de governação das grandes empresas - de capital mais disperso -, tem vigorado uma grande independência entre a rentabilidade e os salários dos gestores, sendo frequente haver redução de lucros e aumento da retribuição dos executivos. Essa tem sido, aliás, a prática nas empresas cotadas na bolsa portuguesa.

A análise aos números de 2007 das cotadas do PSI-20 parece contar uma história diferente. Pela primeira vez, verifica-se uma correlação positiva entre a redução dos lucros e os salários dos gestores. Aprofundando, podemos estar perante uma ilusão de óptica: tirando o efeito de dois casos desviantes - BCP e Semapa - os salários continuam a crescer acima dos resultados.

No Jornal de Negócios acreditamos que é preferível uma sociedade que premeie o mérito do que uma sociedade artificialmente igualitária. Mas isso pressupõe igualmente penalizar o fracasso - o que nesta matéria da remuneração dos executivos não tem sido prática corrente - e que a sociedade disponha de instrumentos de política social para atenuar os desequilíbrios gerados pelo mercado.

Não é seguro que tal esteja a acontecer. E o resultado pode ser uma panela de pressão cuja válvula deixa de funcionar.

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