Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Fernando Braga de Matos 26 de Setembro de 2008 às 10:58

Mais uma morte do capitalismo

Finalmente a letra lá dá com a careta e apresento um título ajustado ao do nome da crónica, o saudoso Pravda1, que lá acabou por desaparecer bem antes do némesis encartado, o capitalismo. O certo é que a comunada, exibicionista2 ou de "closet", anda num sino com este "tsunami" dos mercados financeiros, e alguns, mais azougados,...

  • Partilhar artigo
  • 9
  • ...
O certo é que a comunada, exibicionista2 ou de "closet", anda num sino com este "tsunami" dos mercados financeiros, e alguns, mais azougados, já anunciam o estertor deste nosso bem-querido sistema, enquanto se embrenham em orgasmos intelectuais e até deixaram de subscrever o canal Vènus (mas isso, se calhar, por causa da crise interna).

Então esta intervenção do poder nos mercados financeiros, com práticas nacionalizações, dá-lhes uma nostalgia do Estado, proprietário, director, regulador, fixador de preços e condições (por exemplo, dimensões de fio-dental – aí eu oferecia-me para director), que, de certa forma, só pela filantropia, vale a pena esta balbúrdia. Até já cantam a Internacional com um vago fulgor de Exército Vermelho e vão à manifestação de apoio àquele impagável Hugo Chavez (que, segundo consta, não vem em visita de Estado, mas para um "casting" dos Gatos Fedorentos).

Mas, meus amigos, imaginem que tal morte anunciada já vai em mais de 150 anos3 e o moribundo, fora umas constipações e umas gripes (nem sequer a das aves), vai com um pedal que nem o Lance Armstrong, e o socialismo ou tem uma forte polícia secreta ou é apedrejado pelos indígenas. (Convém, aliás, não fazer confusões e lembrar, desde já, que esses Estados muito bem organizados no norte da Europa, normalmente apodados, sem muitas especificações, sociais-democratas, usam como sistema económico o do primado dos mercados livres e do principio da propriedade privada, com continuada inserção de mais receitas económicas liberais.)

Eu costumo dizer, com a argúcia que a minha mão não parava outrora de apregoar às visitas, que o socialismo não é pior em tudo: O capitalismo é mau a distribuir a riqueza; o socialismo é bom a repartir a pobreza.

Quanto ao que se está e vai passar (no dia da publicação deste artigo, já terá ocorrido o enunciado do plano Paulson), não quero passar sem lembrar a teoria da "Rotating Bubble" de Sowanick, um homem da Wall Street, segundo a qual as "bolhas especulativas" fazem parte da essência do capitalismo, e sempre que uma desaparece outra emerge.

Realmente, parece-me que assim é, e a evidência empírica entra pelos olhos dentro (só recentemente, de há 10 anos para cá): LTCM Hedge Fund, falência da Rússia, crise monetária do Sudoeste Asiático, "crash" Dot.com, escândalo Enron/ Arthur Anderson, World Com, e, agora, o "subprime".

E até se explica facilmente pelos mecanismos lógicos e psicológicos: Adicionam-se tecnologias financeiras cada vez mais sofisticadas com enormes alavancagens, imaginação dos agentes iniciadores, inter-relação económica acrescida, regulações insuficientes (até porque os mecanismos, de recentes, são mal conhecidos), mais uma grande dose de ganância4 e temos um "cocktail Molotov" completamente preparado para estourar.

Desta vez, as coisas começaram com as descidas recorde da taxa do Fed, com Greenspan, e abriu-se a "bolha" imobiliária". Depois, os títulos sobre hipotecas, cada vez menos suportadas em activos sólidos, passaram para imaginosos "collaterized debt obligations", repartindo os ganhos e também os riscos. Contagiaram-se, então, outras instituições financeiras – tão ávidas de lucros como os "ninjas"5 que iniciaram o processo, comprando casas e endividando-se para comprar mais. O golpe final veio dos grandes bancos de investimento, com uma coisa que eu nem topo bem como funciona, os "Credit-default swaps", altamente alavancados produtos em que se trocam direitos sobre títulos em potencial incumprimento. Sempre a pairar, as fundamentais agências de "rating" que atribuíam valor de boa qualidade aos riscos dos títulos, sem perceberem bem o intrincado da coisa.

E, um dia, houve o primeiro devedor hipotecário que ferrou o calo ao banco ou instituição equivalente e a avalanche veio por aí fora. Como a alavancagem era fenomenal (a rapaziada dos Lehman’s andava nos 30-1!), os números agora andam nos triliões, mas ninguém sabe ao certo, se calhar nem Nosso Senhor).

Os puristas do mercado dizem que não há religião sem inferno, nem capitalismo sem falências, e que se devia deixar cair essa gajada que cometeu os erros. Já os inteligentes do mercado dizem que o que interessa são soluções que salvem a economia, isto é, agregadamente quase toda a população. Até os comunas.

E safamo-nos? Claro! (mas também se pode ir a Fátima a pé. Não faz bem nem mal, porém, as expectativas positivas são a chave do totoloto).

(1) Para os mais novos, falecido jornal do PC da URSS, fundado por Lenin, "himself".
(2) Não me refiro aos que não trazem roupa debaixo da gabardina e fazem "flash" nos jardins públicos.
(3) É interessante recordar o debate contra as teses de Marx, por 1880, do posteriormente fundador da social-democacia alemã, Bernstein.
(4) Desde sempre se lê nos livros sobre mercados que os dois grandes motivadores dos intervenientes são o medo e a ganância. Tudo muito visto, afinal de contas.
(5) Nome dado aos adquirentes de casas a hipotecar, sem capacidade financeira para o fazerem: "No Income, No Jobs or Assets".

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Outras Notícias