Fernando  Sobral
Fernando Sobral 06 de fevereiro de 2018 às 09:00

Malvadezas e militares

Não é uma imagem bonita, mas os chefes militares sabem que, neste país, só há duas tácticas para se atingir o sucesso: a de "yes man" ou com um megafone na mão.

O historiador Tacitus, descrevendo os romanos, escreveu para que mais tarde se recordasse: "Eles criaram uma terra desertificada e deram-lhe o nome de paz." Em Portugal semeou-se esse princípio e ele continua a ser colhido para amassar a paz podre em que vivemos, mesmo quando temos a sensação de que algo mudou. Leitores ávidos de Clausewitz e de Sun Tzu, quatro chefes militares enviaram um memorando ao ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, em que, a acreditar no que se tem escrito, acusam o Governo de tratar as Forças Armadas com "iniquidade" e, pior, de pôr em causa a "segurança colectiva". "Iniquidade", sabe-se, tanto significa "injustiça" como "malvadeza". Toninho Malvadeza era o delicado nome por que era conhecido o senador brasileiro António Carlos Magalhães, que a partir da Bahia, fazia e desfazia governos e coligações. Agora os quatro chefes militares conseguem fazer do Governo um seguidor, nas intenções, de Toninho Malvadeza. Não é uma imagem bonita, mas os chefes militares sabem que, neste país, só há duas tácticas para se atingir o sucesso: a de "yes man" ou com um megafone na mão. Escolheram agora a segunda via. Compreende-se o arrufo: há militares a menos, meios militares deficitários e, se calhar, generais a mais. Tudo junto, parece que ainda não adequámos as nossas Forças Armadas à nova era em que vivemos.

 

Basta olharmos com atenção: um país com esta ZEE tem meios navais e aéreos muito deficitários. Adequar os recursos às novas missões internas e externas, sendo um factor de defesa da nação, é há muito uma prioridade. Mas a paz podre parece sempre ter encalhado isso. E não é sempre por falta de meios financeiros. É claro que neste choque frontal entre o Governo e as chefias militares há duas personagens que nos levam a descrever num qualquer debate sério. Azeredo Lopes, o ministro, e Rovisco Duarte, o CEME, foram os dois principais actores da comédia teatral "Tancos: um roubo com uma caixinha a mais". Com intérpretes como estes, que se poderá esperar? Um número de "cabaret"?

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