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Jorge Marrão - Gestor 12 de Novembro de 2012 às 23:30

Manifesto financeiro: renegociação

Negociar com credores oficiais egoístas, e com o mundo, com base em premissas proto-revolucionárias é irresponsabilidade colectiva. Aqueles sabem que, sem ajuda, não temos dinheiro para pagar aos médicos, enfermeiros, professores, militares e pensionistas

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Não há desígnio nacional que agregue os partidos do arco do poder. Mas já temos mais um campo de batalha político: a renegociação da dívida ou simplesmente ganhar tempo. Está assim assegurado ao regime mediático-parlamentar, assente no "prime time" e nas manchetes, o merecido entretenimento. Todos querem ganhar a disputa mediática sobre quem foi o primeiro a referir tal brilhante propósito para arrebanhar os louros do inexorável ajustamento da dívida. Parecem ser irrelevantes as condições de partida para abrir uma negociação. Já falhámos no prometido, não concretizámos parte do acordado, e ameaçamos com a aceleração do tempo, como se fosse despiciendo o momento para a fazer.

As instituições, e os seus egos, enviam agora recados por emissários, mais ou menos respeitáveis, através da floresta mediática para se posicionarem para a vitória, antecipando o sucesso na estruturação de dívida. Já se assume que vamos pedir a absolvição, ou melhor um congelamento barato, imbuído de perdão, e que no-lo oferecem sem obrigações da nossa parte. Devíamos ter sempre um grego ao nosso lado como "aide-memoire" das lições aprendidas. Ao mesmo tempo, esquecemos que ao incumprimento externo se segue o interno. E lá se vão as poupanças nacionais. Passaríamos de uma turbulência a outra. Alguns demagogicamente clamam como "há sempre alternativas".

O País inspira-se sem se dar conta numa tradição "trotskista" de utilização massiva dos media e dos apelos para o repúdio externo. A parição de manifestos e resoluções está iminente. Dos paroquiais das Obras Públicas, agora queremos saltar para o manifesto financeiro do primeiro soviete que proclamava a inevitável falência do czarismo: "decidimos não permitir o pagamento de tais empréstimos feitos pelo Governo dos czares, porque não lhe foi dado pelo povo tal autoridade".

Já não nos podemos revoltar contra as monarquias e ditaduras. Foi a democracia que a gerou. Segundo alguns, devemos no entanto anunciar ao mundo a nossa insolvência. Assim, o povo liberta-se e prospera se se livrar do fardo externo. A legitimidade advém dos credores terem beneficiado e serem agiotas. Inaugurar a contenda desta forma, só pode terminar em sofrimento acrescido, ainda que saibamos que a mesma, sem crescimento robusto, é penosa, revoltante e necessariamente impagável.

Negociar com credores oficiais egoístas, e com o mundo, com base em premissas proto-revolucionárias é irresponsabilidade colectiva. Aqueles sabem que, sem ajuda, não temos dinheiro para pagar aos médicos, enfermeiros, professores, militares e pensionistas. Antevêem também que qualquer crescimento vigoroso requer volumes colossais de capitais externos.

Precisamos de sageza, serenidade e sentido prático, mas histórico, dos partidos do arco do poder e das instituições para se unirem numa estratégia vencedora, enquanto o tempo europeu de resolução da crise não acelera. As autárquicas e o perfume do poder, que pode abalar para uns e ser dado a outros, estão a estorvar a política portuguesa. Há quem julgue que este País dará uma lição à Europa sobre como esta se deve comportar! Só a Europa e o mundo nos podem salvar. Mas é preciso dar-lhe sólidos argumentos para o nosso papel nesta geometria.

Não é imprescindível suspender a democracia para decidir melhor: é querer aprofundá-la, reconhecendo os erros que ela própria produz. Os erros servem para não se cometerem outros. Afinal carecemos urgentemente de uma distinta concepção de democracia. Não usem e abusem dos media para "a solução" desejada para a dívida e crescimento. Façam tréguas. O espírito de conciliação não se adquire nos campos de batalha.

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