Brahma Chellaney
Brahma Chellaney 09 de março de 2016 às 20:30

Manter a ordem asiática

A ambição da China de moldar a ordem asiática não é secreta. E outras potências da região têm feito pouco para desenvolver uma estratégia coordenada para impedir estes planos hegemónicos.

A ambição da China de moldar a ordem asiática não é secreta. Da estratégia "one belt, one road" ao Banco Asiático de Investimento em Infra-Estruturas, sediado em Pequim, as principais iniciativas chinesas estão a avançar de forma gradual e estável no objectivo estratégico da China de moldar uma Ásia centrada na China. Como os vizinhos da China bem sabem, a busca do país pelo domínio regional pode ser prejudicial – e mesmo perigosa. Porém outras potências regionais têm feito pouco para desenvolver uma estratégia coordenada para impedir os planos hegemónicos da China.

 

Para ser correcto, outras potências têm delineado políticas importantes. De forma notável, os Estados Unidos iniciaram a sua posição muito aclamada de "pivot" estratégico em relação à Ásia, em 2012, quando a Índia também revelou a sua política "Act East". De forma similar, a Austrália mudou o seu foco em direcção ao Oceano Índico e o Japão tem adoptado uma abordagem do Ocidente para enfrentar a política externa.

 

Mas a acção coordenada – ou mesmo o acordo sobre os objectivos políticos amplamente partilhados – tem permanecido incógnita. De facto, um elemento chave do americano "pivot" asiático, o acordo comercial da Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla anglo-saxónica) entre 12 países, não só exclui a China; também deixa de fora aliados próximos dos Estados Unidos como a Índia e a Coreia do Sul.

 

Este não é o único problema com a TPP. Uma vez que o longo processo de ratificar o acordo nas legislaturas nacionais está concluído e a implementação começa, o impacto será gradual e modesto. Afinal, os seis membros já se vangloriam dos acordos bilaterais de livre comércio com os Estados Unidos, o que significa que o principal efeito da TPP será criar uma área de comércio livre (FTA, na sigla anglo-saxónica) entre o Japão e os Estados Unidos, que em conjunto representam cerca de 80% do PIB conjunto dos países da TPP. A conclusão da Parceria Económica Regional Abrangente iniciada pela ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático) – que inclui a China, Índia, Coreia do Sul, Japão, Austrália e Nova Zelândia mas não os Estados Unidos – deverá enfraquecer mais o impacto da TPP.

 

Comparemos isto à iniciativa "one belt, one road", que pretende impulsionar a alavancagem financeira da China em relação a outros países através do comércio e investimento, ao mesmo tempo que revemos o status quo marítimo, ao estabelecer a presença da China em áreas como o Oceano Índico. Se o presidente Xi Jinping atingir mesmo metade do que definiu fazer com esta iniciativa, a geopolítica asiática será profundamente afectada.

 

Neste contexto, o futuro da Ásia é altamente incerto. Para assegurar a estabilidade geopolítica, os interesses dos principais operadores da região devem ser equilibrados. Mas com a China ansiosa para flexibilizar os músculos políticos, financeiros e militares que tem desenvolvido ao longo das últimas décadas, negociar tal equilíbrio não será uma proeza fácil.

 

Como está, nenhum poder – nem mesmo os Estados Unidos – podem compensar o poder e influência da China por si própria. Para assegurar um equilíbrio estável de poder, países com pensamentos semelhantes devem ficar juntos no apoio às regras da ordem regional e, assim, serem convincentes. A China abraça as normas internacionais, incluindo a definição de disputas sobre a negociação da paz, em vez da intimidação militar ou da força absoluta. Sem tal cooperação, as ambições da China seriam limitadas apenas por factores domésticos, tais como a economia em dificuldades, o crescente descontentamento social, uma crise ambiental ou vícios políticos.

 

Quais os países que devem assumir a liderança nas constrangedoras ambições revisionistas da China? Com os Estados Unidos distraídos por outros desafios estratégicos – para não mencionar a sua campanha presidencial interna – outras potências da Ásia – em particular, uma Índia a crescer economicamente e um Japão mais assertivo politicamente – são os melhores candidatos para a função.

 

Tanto a Índia como o Japão são interessados de longa data na ordem global liderada pelos Estados Unidos, enfatizando nas suas próprias relações internacionais os valores que a América defende, tais como a necessidade de manter um equilíbrio estável de poder, respeitar o status quo territorial e marítimo e preservar a liberdade de navegação. Além disso, têm demonstrado o seu desejo partilhado de defender a actual ordem asiática.

 

Em 2014, enquanto visitou o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe em Tóquio, o seu congénere indiano, Narendra Modi, fez uma crítica velada ao expansionismo chinês, criticando a "mentalidade expansionista do século XVIII" que se tornou evidente "em todos os locais à nossa volta". Citando a invasão das terras de outros países, a intrusão nas suas águas e mesmo a captura do território, Modi deixou poucas dúvidas sobre o objectivo desta queixa.

 

No último mês, Abe e Modi deram um pequeno passo em direcção à cooperação. Ao apelarem em conjunto a todos os países para "evitarem as acções unilaterais" no Mar do Sul da China, implicitamente criticaram a construção da China das ilhas artificiais, o que precisamente viram como uma tentativa flagrante de assegurar a alavancagem nas disputas territoriais – e ganhar o controlo sobre as rotas marítimas de "importância crucial" para a região Indo-Pacífica.

 

Claramente, tanto o Japão como a Índia estão bem conscientes que as ambições da China, se concretizadas, resultariam numa ordem regional hostil aos seus interesses. Ainda assim, ainda que eles se tenham comprometido em manter o status quo, não conseguiram coordenar as suas políticas e investimentos em Myanmar e Sri Lanka, ambos identificaram os países estrategicamente vulneráveis à pressão chinesa. Isto tem de mudar.

 

As principais potências da Ásia – começando com o Japão e a Índia, mas também incluindo os Estados Unidos – devem trabalhar em conjunto para assegurar um equilíbrio de poder em geral benéfico e estável. Para este fim, as manobras navais, tais como o "Exercício Malabar" anual entre os Estados Unidos-Índia-Japão, são úteis, pois reforçam a cooperação militar e a estabilidade marítima.

 

Mas nenhuma estratégia será concluída sem uma grande componente económica. As potências da Ásia devem ir além das FTA para iniciar projectos geo-económicos conjuntos que servem os principais interesses dos países mais pequenos, que não teriam assim de depender dos investimentos e iniciativas chineses para impulsionar o crescimento. Como resultado, mais países seriam capazes de contribuir para o esforço de assegurar uma ordem inclusiva, estável e baseada em regras nas quais todos os países, incluindo a China, podem prosperar.

 

Brahma Chellaney, professor de Estudos Estratégicos no Centro de Pesquisa de Nova Deli e membro da Academia Robert Bosch em Berlim, é autor de nove livros, incluindo Asian Juggernaut, Water: Asia’s New Battleground, e Water, Peace, and War: Confronting the Global Water Crisis.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org

Tradução: Raquel Godinho



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