Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Fernando Ilharco 18 de Maio de 2017 às 20:12

Maré alta

Leonardo Jardim campeão de França, Salvador Sobral vencedor da Eurovisão, Mourinho na final da Liga Europa, António Guterres na liderança da ONU, Portugal campeão da Europa, a Web Summit cinco anos em Lisboa são a face mais visível de uma vaga que tem levado portugueses a posições de destaque.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Em teoria, dir-se-ia que os tempos globais que vivemos, de descobertas constantes e interacção permanente entre gentes diferentes, seriam favoráveis a um povo como o português e a uma cultura como a nossa. O resto do mundo, de alguma forma, sempre foi natural para os portugueses. "Estamos no mundo como quem está em casa", escreveu Eduardo Lourenço.

 

As coisas não acontecem por acaso. Leonardo Jardim é outro caso de sucesso no futebol que vai deixar marca. Mourinho está outra vez numa final do futebol europeu. Ronaldo não para de estabelecer recordes. Noutros campeonatos, Salvador Sobral pode ser uma história a começar. A Web Summit, ao que tudo indica, vai ficar entre nós mais quatro anos. E nas bocas do mundo as referências ao país, a Lisboa e ao Porto, entre outras cidades e locais, são recorrentes. O país está em maré alta.

 

O ambiente que se vive é sempre importante para o futuro. Hoje um país faz-se e sobrevive em função da sua capacidade de se distinguir dos outros no mundo globalizado. A prosperidade de um país assenta na competitividade dos seus habitantes, nacionais e estrangeiros, no contexto global, tecnológico, disruptivo contemporâneo. A produtividade que Portugal necessita depende de colocar o país nos mercados de maior valor. Como tem vindo a acontecer em vários casos, não se trata de trabalhar mais, mas de trabalhar em actividades diferentes, de trabalhar melhor. No topo estão as coisas estão juntas: trabalhar muito e trabalhar melhor. No quadro do que sempre se fez, o aumento do valor só pode fazer-se até um certo ponto; um parafuso é sempre um parafuso. Gerar mais valor é fazer diferente.

 

Não apenas no turismo, mas em sectores exportadores e, talvez sobretudo, na maneira móvel e internacional de uma boa parte da juventude portuguesa o país tem estado a mudar. A crise e a austeridade ajudaram, evidentemente. E o que mais tem ajudado, patente na generalidade dos casos de sucesso, de Salvador Sobral a Leonardo Jardim, passando pela Web Summit, é o valor da competição. Competição intensa, regras claras e dedicação, esforço e colaboração é o caminho para o sucesso. Portugal têm mudado. Sobretudo em contextos sujeitos à competição aberta.

 

Os mercados são o que acontece e não o que se quer que sejam. A competição global não se compadece com favorecimentos ou restrições. Abrirmo-nos menos neste ou naquele sector não nos favorece. O que mais faz por nós é a competição, expormo-nos, mudar e inovar.

As decisões que mais pesam, influenciam e marcam o sucesso de uns e o insucesso de outros, em rigor não são decisões singulares mas acções colectivas, projectos e ambições que enquadram e modelam comportamentos que têm possibilidades de sucesso no fluir natural das coisas. Por isso, a mentalidade, o quadro de movimentos, a cultura em que estamos imersos é decisiva no que somos capazes de fazer. Somos capazes? Há dois mil anos, Virgílio, o poeta romano, respondeu: "são capazes os que pensam que são capazes".

 

A descolarização

 

"[As massas] por essa altura [fins do séc. XXIII] já não sabiam ler nem contar. Mas estes cidadãos menos capazes não eram de modo algum bárbaros; contudo proporcionar-lhes qualquer tipo de escolaridade era um esforço inútil (…) Alguns defendem agora que a culpa era da escola e não dos alunos; contudo, quando os próprios professores declararam que era impossível ensinar as crianças, o movimento para a descolarização persuadiu rapidamente toda a gente", Lê-se na obra monumental 'da Alvorada à Decadência' de Jacques Barzun.

 

65 anos de idade

 

Se pensarmos nas pessoas que hoje têm 65 anos de idade ou mais, ou que em alguma altura da história da humanidade o tenham tido, então chegaremos à surpreendente conclusão de que a maioria delas está viva. Mais de 90 por cento de todo o conhecimento científico foi gerado nos últimos 10 ou 15 anos. Bem mais de 90 por cento da informação criada diariamente nunca será acedida por ninguém. No Japão sugiram crianças que apontam com o polegar, o dedo do telemóvel, o interface do mundo.

 

A criança videojogo

 

Com 6 anos de idade, depois de anos de videojogos, de ter viajado por galáxias longínquas, de ter entrado em guerras e lutado com monstros, de ter guiado na fórmula 1, de ter jogado com Ronaldo, a criança chega à sala de aula, senta-se e não sabe o que fazer. "Caladinho," ouve. Nem jogos, nem imagens, nem sons, nem comandos, nada. Então, a professora escreve no enorme quadro verde: b + a = bá. A criança nunca viu nada assim e o choque é inevitável. "Está maluca. Nunca mais cá venho." 

Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias