Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Cristina Casalinho 13 de Fevereiro de 2009 às 12:08

Mau banco, banco bom

O sistema financeiro das economias desenvolvidas defronta-se com mais uma onda de adversidade. Quebra de resultados, perdas de mercado significativas, dificuldade em obter financiamento e/ou reforçar estruturas de capital.

  • Assine já 1€/1 mês
  • 6
  • ...
O sistema financeiro das economias desenvolvidas defronta-se com mais uma onda de adversidade. Quebra de resultados, perdas de mercado significativas, dificuldade em obter financiamento e/ou reforçar estruturas de capital. As fórmulas de salvamento ensaiadas em Setembro passado revelam-se insuficientes. As capitalizações bolsistas dos bancos continuam a encolher e as semi-nacionalizações testadas afugentaram os investidores do sector. Entretanto, repescam-se ideias iniciais: a criação de um fundo público para produtos "tóxicos". Reconhece que uma parte significativa do problema resulta da incapacidade de valorização de determinada classe de activos, que enfrenta uma espiral de preços em queda. O dreno no capital, que decorre das perdas de valor de mercado de alguns dos activos, implica que os bancos se obriguem a deter volumes anormalmente elevados de liquidez e capital. Em Janeiro, o FMI anunciou uma nova estimativa das perdas bancárias totais no valor de 2.2 biliões de dólares; contudo, apenas 30% destas perdas resultam de incumprimento efectivo, os restantes 70% derivam de quebras de valor de mercado.

Uma das críticas ao plano de aquisição de produtos tóxicos pelo Estado procede do preço de aquisição. Se demasiado baixo, não há adesões ao plano, mas se demasiado generoso, ocorre uma transferência de riqueza dos contribuintes para os bancos, provocando "moral hazard" - a impunidade de comportamentos arriscados fomenta o seu aumento em frequência e dimensão do risco assumido. Donde, a presunção que um processo de nacionalização seria melhor. Ora, a existência de sistemas bancários de dimensões muito superiores às respectivas economias, como acontece no Reino Unido ou na Suíça, e elevados riscos de litigância (de accionistas que se considerem lesados pelo preço da nacionalização - inferior ao de mercado) comprometem esta alternativa. Na nacionalização, como no plano de compra de activos "tóxicos", o preço é um factor de disputa e desacordo. Também se levantam questões sobre a posterior privatização, não estando garantido que não há custos para o contribuinte (e qual a racionalidade das decisões dos bancos nacionalizados?). A recapitalização seguida nos EUA e Reino Unido, entre outros, também não é solução definitiva para a reanimação do crédito, porque mantém nos balanços a classe de activos responsável pela erosão do capital, prosseguindo os bancos políticas de preservação de capital e liquidez contrárias à retoma do crédito. Um plano compulsivo de compra de activos "tóxicos" sob a forma de "mau banco", com preço transparente definido pelo regulador, apresenta vantagens, porque remove do balanço dos bancos a principal causa da sua debilidade. Ao possibilitar o isolamento e extracção dos activos de má qualidade, liberta os bancos da incerteza das perdas a estes associadas e do controlo de danos. Assim, baseadas nos activos de qualidade, as instituições viáveis podem-se recentrar na concessão de crédito à economia, enquanto as inviáveis dissolver-se-iam ordenadamente, fomentando a recuperação. Por seu turno, esta tende a conter o aumento das insolvências, desmentindo projecções pessimistas de perdas. No final, o Estado pode obter um ganho adicional pela detenção destes activos, revelando-se uma fonte de receita.1

A reabilitação dos sistemas financeiros das economias desenvolvidas é crucial para a contenção da espiral recessiva. Não existem períodos de prosperidade económica sem expansão de crédito, nem bancos saudáveis. Para a economia se restabelecer é imprescindível que o crédito volte a fluir e para tal o sistema bancário tem de ser refundado. Aliás, a evidência histórica parece apontar para que as medidas mais eficazes na travagem de uma crise consistem na reabilitação do sistema bancário e reanimação do crédito. Uma das principais críticas à actuação das autoridades japonesas na crise de 90 foi a demora no auxílio aos bancos, que só aconteceu em 1998. O salvamento dos bancos acarreta perdas para os contribuintes no curto prazo (crises bancárias anteriores representaram perdas entre 15-20% do PIB), mas o "mau banco" pode-se revelar um bom investimento no futuro. Enquanto o salvamento do sistema financeiro esbarrar na discussão (importante) da socialização dos custos e os investidores pressionarem os bancos a reforçar estruturas de capital e liquidez, os canais do crédito continuarão entupidos, atrofiando a actividade económica e ampliando os custos globais.
Ver comentários
Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias