Leonel Moura
Leonel Moura 09 de agosto de 2013 às 00:29

Memória do fascismo

Definitivamente não estamos no fascismo. Há liberdade, podemos falar e até insultar os dirigentes. Temos também alguma margem de escolha democrática. Mas concordo que existem hoje sinais e tiques fascistas, sobretudo na atividade política

Dei por mim a tentar recordar como era Portugal antes do 25 de Abril. Não é coisa que me aconteça com frequência. Fanático do futuro, o passado interessa-me pouco e as recordações ainda menos. Sucedeu porque surgem, aqui e ali, afirmações de que estamos a regressar ao fascismo ou, nos mais radicais, que já estamos de novo no fascismo.


A minha memória é delimitada pelos últimos anos da década de 60. Entre a idade para perceber o que se passava à minha volta e a partida para a Europa de que só regressei após a revolução. Vivia então na zona moderna de Lisboa, em Alvalade, junto à Avenida dos Estados Unidos e o simulacro de arranha-céus no cruzamento com a Avenida de Roma. Era frequentador do café Vá-vá, onde se encontravam cineastas e artistas, num ambiente sofisticado destacado pelos painéis da pintora Menez. Pertencia à classe média emergente.

A realidade social era contudo muito distinta dos sonhos da geração de 60, uma espécie de baby boomers locais. O quotidiano era extremamente opressivo. Não havia liberdade, a censura era feroz, como a estupidez sempre o é, não se podia sequer falar livremente. Entre amigos sussurravam-se ideias, mas atentos à mesa do lado, ao empregado que servia a bica, a quem passava. Não estávamos ainda na paranoia da vigilância atual, com as câmaras vídeo, devassa das conversas telefónicas e e-mails. A opressão tinha rosto humano. E não era bonito de ver.

A Pide visitava com frequência a nossa casa. A família era oposicionista. Ao que parece procuravam livros e panfletos, numa sanha a quem nem escapava a minha coleção de banda desenhada. Eram uns amadores, uns pobres coitados, como diz um amigo meu. Mas eram uns pobres coitados brutos. Nesses dias acordavam-me de madrugada. A Pide vinha sempre pela calada da noite. Depois de tudo vasculhar, por vezes levavam um familiar para interrogatório.

A mais penosa experiência pessoal que guardo desses anos eram as visitas ao Aljube e ao forte de Caxias para ver o meu pai, matemático, preso pelas ideias. No Aljube o ambiente metia medo. Era aí que torturavam os presos e várias vezes tínhamos de voltar para trás, imagina-se porquê. Em Caxias cumpria-se pena mas a cena não era menos surreal. Visitantes e presos estavam separados por vidros, com um corredor ao meio por onde andava o guarda a ouvir as conversas. Mas nem era preciso. Os vidros tinham uns quantos orifícios laterais e, para nos fazermos ouvir do outro lado, era preciso gritar. A vozearia na sala era tremenda. Saía de lá sempre enjoado.

Bastava afastar-nos um pouco da zona de conforto burguês da Avenida de Roma e a extrema miséria era visível por todo o lado. Os portugueses eram na generalidade tristes, cinzentos e temerosos. A maioria da população vivia no medo e numa pobreza profunda. Viam-se pessoas descalças, esfarrapadas, a mexer nos caixotes do lixo.

Citadino de gema fazia por vezes incursões à província. E aí o panorama era ainda mais tenebroso. Recordo uma viagem "educativa" a Trás-os-Montes. A família queria que eu conhecesse o país profundo. Não gostei. As cidades eram aldeias, as aldeias buracos sem acessos ou nada daquilo que faz a civilização, água canalizada, eletricidade, escolas, etc… Parte significativa do território português de há meio século estava ainda na Idade Média.

No Liceu Camões, onde entrei com 10 anos, os jovens não podiam correr no recreio. Professores e funcionários eram autoritários, ainda se infligiam castigos corporais, e o vice-reitor um fascista conhecido membro da Legião. Os padres eram sinistros. Felizmente nunca frequentei as aulas de Religião e Moral, a pedido do meu pai. Não sem consequências. Por qualquer coisa trivial era logo castigado.

Enfim, definitivamente não estamos no fascismo. Há liberdade, podemos falar e até insultar os dirigentes. Temos também alguma margem de escolha democrática. Mas concordo que existem hoje sinais e tiques fascistas, sobretudo na atividade política. Dou por isso razão ao jornalista Óscar Mascarenhas que num corajoso artigo afirmou que o fascismo está de novo a bater-nos ao de leve à porta pela mão de alguns dos atuais membros do Governo. Para impedir estas tentações a memória conta. E muito.

Artista Plástico

Assina esta coluna semanalmente à sexta-feira
Este artigo de opinião foi escrito em conformidade com o novo Acordo Ortográfico.

pub

Marketing Automation certified by E-GOI