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Fernando Braga de Matos 30 de Julho de 2010 às 12:32

Metamorfoses

(Onde se enumeram algumas das facetas do primeiro-ministro, caprichosamente variável e imprevisível, um verdadeiro "transformer", sempre em mutação e a surpreender, como agora, na telenovela Vivo).

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Quando surgiu na ribalta, o primeiro-ministro - já lá vão uns numerosos cinco anos - surpreendeu de imediato pelo modo virulento e implacável com que declarou guerra a corporações instaladas, como a dos farmacêuticos, professores, juízes, etc. Entrou a rugir com o que parecia uma indómita vontade de "levar tudo raso", como diz eloquentemente o povo, de modo a fazer coisas enormes, como criar 150.000 empregos. Impressionou muita gente, incluindo este sinceramente vosso, e definiu-se a si próprio, mais tarde, como "autêntico animal feroz". O animal feroz emanava rasgo e ímpeto, tornando até difícil aos mais próximos acompanhar o imperativo passo. Veja-se, por exemplo, Freitas do Amaral, a quem deu a solipampa passados uns meses; Campos e Cunha , que ainda vivia num mundo rural de contas bem feitas e comboios a vapor; ou Teixeira dos Santos, que entrou ainda com cabelo negro e penteado à Elvis Pesley e agora o tem branco de neve, enquanto elaborava um orçamento e dois pactos de estabilidade, sucessivamente em três meses, sobre a mesma matéria. Poucos dos que tiveram a ousadia de lhe fazer frente escaparam ilesos, e até me lembro do Congresso do PS, onde, num cenário de Cristopher Nolan, se afinou a pontaria contra Moura Guedes e o Público e se deixou tudo o que era esferográfica em alta tensão.

Mas há mais Sócrates em Sócrates, como seja, por exemplo, a faceta animal de tracção, ele que se sente "sozinho a puxar pelo País. E, com efeito, só se pode sentir simpatia pela solitária tarefa de empurrar 9.999.999 cidadãos renitentes às palavras de ânimo, estímulo e optimismo com que o "primeiro" injecta o parco fervor dos portugueses. Bem sabemos que é difícil a um líder, por si ou seu mandatário, prometer boaventuras e cenários alegres sempre desmentidos por uma malfazeja realidade que parece apostada em desdizê-lo, para depois se ver corrido nas suas boas intenções com palavreado de desmerecimento e ultraje. Dizem línguas viperinas que o problema que surge, não dando mérito ao primeiro-ministro só porque nada se passa, como ele diz, é o da falta de credibilidade: Tantas vezes se faz isso que os destinatários das mensagens fazem-lhe como ao Pedro e não acreditam. E ele, que é um homem de virtudes e sensibilidade, sofre neste mundo cruel. Outros que quisessem poupar o primeiro-ministro da sua veia traccionária, tal novo Sísifo, aconselhá-lo-iam o seguir preferentemente o meio do discurso de verdade e esperança, descrevendo com rigor os problemas, apontando as soluções e argumentando pela eficácia e justiça. Já somos uns homenzinhos, bolas, aguentamos as más notícias e sabemos sair unidos a enfrentar os danos, e preferimos isso à distribuição de "lolipopes" enquanto o mar avança. Mas enfim, neste fato Sócrates já tem audiência internacional e até o "Financial Times" o chamou "incorrigível optimista".

Versátil, Sócrates apresentou ultimamente um outro papel, o patriótico, encabeçando um apático exército nacional contra os castelhanos da Telefónica e, perante o extasiado povo, brandiu-lhes a "golden share " da PT. Vencida esta batalha, os ardilosos homens de Castela regressaram por vias travessas a apresentarem a arma última: mais dinheiro, 350 milhões a mais. Agora veio ao de cima o grande e pouco desmentido provérbio, segundo o qual "tudo tem um preço". Por exemplo, quando aparecer a factura final do negócio, uma das verbas mais salientes será a do "goodwill", no qual o item "interesse estratégico nacional" será valorado em 350.000.000 de euros. Bem-haja, pois, José Sócrates, que tão bem soube valorizar os princípios, de modo a deixá-los fora das abstracções, antes quantificando-os em moeda transaccionável.

Pessoalmente, sempre achei que, se havia uma "golden share", ela não seria apenas para adornar o átrio da Portugal Telecom, pelo que nada houve de sensacional em brandir a mesma, tanto mais que vários outros países da Europa, de maior calibre, haviam assumido poder preferencial em negócios semelhantes. Para mim, o que faltou foi definir "interesse nacional" que, no começo, nada mais é que um conjunto de palavras, e cujo conteúdo havia que deixar determinado. Ficou agora, em sestércio(1).


(1)A influência na aquisição da Oi nada tem a ver com o assunto Telefónica, é coisa aparte.

Advogado, autor de "Ganhar em Bolsa"
(ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas"
(ed. Presença). fbmatos1943@gmail.com
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