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Nuno Garoupa 29 de Agosto de 2012 às 23:30

Mitos de Verão: a incompetência não começou agora

O Governo quer criar uma mega PPP para a RTP ao mesmo que jura que vai acabar com as PPP. Quem o diz não é membro do Governo, mas um mero "consultor do Governo para as privatizações" que até acumula com outras coisitas no sector privado

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(1) Diz-se que, nas últimas décadas, Portugal tem sido governado por jotinhas. Profissionais da política sem qualquer outro percurso profissional. Gente com licenciaturas ao domingo, por correspondência, ou por mérito obtido em ranchos folclóricos. Especialistas na táctica e na sobrevivência dentro do aparelho partidário, mas sem uma dimensão ou estatura intelectual para pensar um país. Educados no tráfego de influências e economicamente dependentes dos lóbis, são uma classe política sem qualquer independência para reformar Portugal. Fortes com os mais fracos, são muito fracos com os mais fortes.

Tudo verdade. Mas quem anda um pouco esquecido até pode pensar que os nossos problemas só começaram com Sócrates ou Passos. Sem dúvida que os Drs. ou Engs. das licenciaturas modernas lusófonas que nos governam prestaram e prestam um péssimo serviço ao país, mas as profundas deficiências estruturais da economia e da democracia portuguesa não foram criadas por eles. Elas foram herdadas dos senhores professores doutores, dos Drs. ou Engs. das licenciaturas sérias da "Ivy League" portuguesa. Uma geração que desperdiçou os fundos estruturais para construir um estado onde enriqueceram, engordaram, expandiram o sector empresarial do Estado para acumular salários milionários, legalizaram o roubo com o nome de PPP (que agora aparecem a renegociar em nome do lado beneficiado), passaram ao sector privado para rentabilizar o tráfego de influências. Mais velhos, acumulam pensões pelo "grande" serviço público prestado e debitam moralidade nos noticiários das nove ou das dez (enquanto choram as pensões de miséria dos mais carenciados). Os jotinhas serão porventura maus. Mas os senhores doutores foram certamente muito mais daninhos.

(2) Lê-se frequentemente que a Europa está sem líderes. A solidariedade europeia precisa de gente como um Kohl, um Mitterrand, um Delors (um personagem sem qualquer legitimidade democrática que supostamente inventou a Europa), um González, etc. Agora é só gente sem carisma, sem visão. Os líderes dos anos 80 e 90 é que foram bons, inspiradores e grandes europeístas. Acreditaram e construíram o euro. Que tenham ignorado todas as críticas e chamadas de atenção (da zona monetária sobreóptima aos custos dos choques assimétricos), que tenham avançado com uma moeda única sem prevenir o futuro, isso vai para debaixo do tapete. Que tenham sido incapazes de resolver os egoísmos nacionais com um tratado comunitário, pois fizeram quatro ou cinco sem nunca resolver o problema; que tenham adiado os custos para um futuro incerto (o nosso presente) para viver o presentes deles (o nosso passado) na comodidade de quem não enfrenta os eleitores, isso também fica para outra conversa. Pode ser que Merkel seja uma senhora muito pouco dada ao "glamour" dos "tudólogos" portuguesas, mas é ela que tem de resolver aquilo que os grandes senhores do sonho europeu não souberam precaver e enfrentar.

(3) O Governo quer criar uma mega PPP para a RTP ao mesmo tempo que jura que vai acabar com as PPP. Quem o diz não é membro do Governo, mas um mero "consultor do Governo para as privatizações" que até acumula com outras coisitas no sector privado. Logo vem um senhor dizer que isso é inconstitucional. Não é o porta-voz do PS para a comunicação social, mas sim um regulador do sector. Consultores "part-time" que falam pelo Governo, reguladores que falam pela oposição. Mas é tudo normal em Portugal.

Professor de Direito da University of Illinois
nuno.garoupa@gmail.com
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