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Mário Negreiros 16 de Agosto de 2005 às 13:59

Miúdos a falar francês

Cercada por vinhas, pomares e olivais, Carrazeda de Ansiães ferve. A avenida – de que ninguém sabe o nome pela boa razão de não haver na cidade outras avenidas com que essa se pudesse confundir – mostra-se pequena para o desfile de carros, alguns dos mode

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No Talho Avenida, na própria, os seis empregados vão atendendo a clientela, disciplinadamente organizada na espera numerada das senhas distribuídas à entrada. Não têm mãos a medir, ocupadas que estão a pegar, cortar, pesar e embrulhar cabritos, borregos, coelhos, alheiras e novilhos, de tudo um pouco? ou nem tão pouco, porque a fome – não a da pobreza, que dói, mas a da gula, que antecipa prazeres – é muita. No Restaurante Avenida, estabelecido na mesma, o proprietário só não amaldiçoa a confusão de gente, pratos e talheres porque sabe ser esse o seu negócio. A prosperidade é buliçosa.

Será da vinha, a melhor de Portugal, que vem essa vida desapertada e alegre? Será do azeite, das maçãs, das laranjas (as mais doces do mundo) que vem o dinheiro que dinamiza tamanha agitação e ímpeto consumista no meio rural transmontano? Será a paisagem, património mundial reconhecido pela UNESCO, que atrai turistas e, com eles, a prosperidade económica?

Mas como será isso possível, se o que se vê em volta é mata ardida, vinha sem irrigação a tostar ao sol depois de dois anos seguidos de seca (há notícias de quem tenha deitado as uvas ao chão para tentar salvar a vinha), arquitectura feia e se, salvo uma meia dúzia de agradáveis excepções, o que se vê, em termos de exploração turística na região, são tascas com a TVI aos berros e vinho avinagrado?

O turismo que efectivamente prospera é o da miséria e da falta de oportunidades. O que enche as ruas de Carrazeda de Ansiães – como tantas outras – de carros com matrícula suíça, francesa, alemã e, mais do que quaisquer outras, luxemburguesa; o que anima o mercado local com o consumismo sazonal de Agosto são as férias dos que nas férias não vão para fora, porque já lá estão: vão mas é para dentro, para o interior da sua aldeiazita pequena e pobre, de onde tiveram que sair para ganhar a vida, e a que todos os anos retornam para se abastecerem de todos os sabores, cheiros e afectos que deixaram para trás e para encher as ruas de miúdos a falar francês, porque se não forem esses, não haverá nenhuns.

Vive-se, no Nordeste de Portugal, essencialmente, como se vivia há 50 anos no Nordeste de Portugal. Mudam os modelos dos carros mas não muda a lógica: uns vão para fora para, uma ou duas vezes por ano, voltarem à terrinha e animar um pouco as vendas dos que por cá ficaram. E o que exaspera é pensar que não tinha que ser assim. O que a natureza, embora dura e exigente, oferece ali é precioso. Um tomate criado naquele chão é uma experiência diferente – nada a ver com o que se vê nos supermercados. As laranjas – oh, as laranjas do Douro! – apodrecem no chão. As amêndoas? o vinho? Assumamos sem complexos que temos excelência e vendamo-la? mas vendamo-la cara. Ficam os espanhóis com a quantidade, nós com a qualidade. Façamos de Portugal uma marca – o tomate com sabor, a laranja mais doce, o vinho bem feito, o azeite de qualidade? é só de gente que se precisa, e essa mandamo-la para fora.

PS: Carros (seja de onde for a matrícula), o vosso lugar é a rua!

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