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Isabel Meirelles 25 de Maio de 2006 às 13:59

Montenegro no panorama europeu

Está estudado, e de algum modo comprovado, que este descontentamento, e mesmo hostilidade, se deveu a um alargamento desmesurado, que tende a ampliar-se, já para o próximo ano, à Roménia e à Bulgária, ...

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A implosão em micro estados independentes, embora fazendo jus aos princípios da democracia e da autodeterminação, são um problema acrescido para a complexidade galopante da União Europeia que, cada dia, se enreda mais numa teia de problemas resultantes da incapacidade de obter consensos e da tentativa de ir sempre pelo politicamente correcto.

Isto aconteceu, uma vez mais, com o referendo realizado no Montenegro que restituiu, formalmente, a este país a sua independência, perdida desde o final da Primeira Guerra Mundial em 1918, com a sua integração no então Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos.

Contudo, esta não é uma boa notícia para a União Europeia que, indirectamente, tentou travar este resultado ao impor exigências inéditas de que, pelo menos, 55% dos sufrágios fossem favoráveis, o qual se conclui, com uma margem pouco confortável, porque apenas 463 mil eleitores votaram e destes apenas 55,4 por cento apoiou a separação da Sérvia, que na prática já existia com um Parlamento, um presidente, um governo, uma bandeira e uma moeda próprias, no caso o euro. Estas exigências visavam, igualmente, evitar que a minoria sérvia, mais partidária de um Estado unitário, fosse colocada perante uma situação que não podia influenciar.

Com estes resultados a União Europeia aumenta os seus problemas, sobretudo na perspectiva, já anunciada, de que o Montenegro pretende pedir a sua adesão, sendo que é um país pequeno e pobre, com um equilíbrio muito frágil entre eslavos e albaneses, que vive, no essencial do turismo e que é reputado de esconder perigosamente, até nas ligações com o poder, células muito fortes de crime organizado que, desde logo atingem mais directamente outro país da União, no caso a Itália.

Por outro lado, esta declaração de independência montenegrina, não pode deixar de ter consequências noutra aspiração independentista, a do Kosovo, cuja população é composta por 90 por cento de cidadãos de origem albanesa, ainda que já separado, de facto, desde a guerra de 1999.

Todos estas variáveis criarão tensões acrescidas numa zona do globo tradicionalmente instável, não só porque os sérvios podem perder aquilo que a maioria nacionalista considera o berço da sua pátria, como assistir à ruína do sonho de recomposição de uma grande Sérvia, encarnado por Milosevic. Mas não só. Com este exemplo, mesmo no âmbito dos Vinte e Cinco, os nacionalismos basco, catalão ou flamengo podem exacerbar-se ainda mais.

No início da semana, Durão Barroso esteve em Lisboa para ajudar a coordenar os preparativos da presidência portuguesa dos Conselhos da União Europeia, tentando, simultaneamente, lançar uma ideia aglutinadora e galvanizadora que dê resposta aos traumas, ainda não superados, da rejeição da Constituição Europeia por franceses e holandeses, com efeitos epidémicos detectados nos níveis crescentes de desinteresse e, no limite, de contestação do projecto de construção europeia.

Tarefa titânica, sobretudo porque está estudado, e de algum modo comprovado, que este descontentamento, e mesmo hostilidade, se deveu a um alargamento desmesurado, que tende a ampliar-se, já para o próximo ano, à Roménia e à Bulgária, seguida de uma corte de outros pedidos, alguns já analisados como o da Turquia, o da Croácia, mas outros que podem cair perigosamente, quiçá em tempo de presidência portuguesa, como o do anunciado Montenegro.

Este país é com os seus cerca de 700 mil habitantes, de tal modo pequeno que, provavelmente, não chegará para ser uma dor de cabeça para a União, mas pode ser com as suas ambições de pertença ao clube dos agora 25, uma valente enxaqueca.

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