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Sofia Galvão 19 de Novembro de 2003 às 16:03

Mudança de líderes: o desafio inadiável

Diogo Vaz Guedes apelou à acção. Mas deixou claro que esta deve radicar em convicções e em responsabilidade. Ao convocar a sua geração, quer pô-la à prova. E ainda bem.

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Na noite da passada quarta-feira, Diogo Vaz Guedes foi claro e directo. No dia seguinte fez a manchete deste Jornal de Negócios, com a frase “é urgente mudar líderes associativos”. Percebendo o alcance do que disse, uma geração inteira respirou de alívio.

E porquê? Porque tardava que surgisse alguém a assumir o óbvio. Nestes exactos termos. Afirmando o que todos sabem, o que todos sentem, o que todos pensam. Mas, marcando a diferença, justamente, nessa recusa incomum de transigir e de calar.

É uma atitude, radicalmente, nova. Que refunda a esperança de muitos. Mas que, por isso mesmo, obriga e responsabiliza quem tenha a coragem de ir por aí. Com António Mexia por interlocutor, e reportando-se à realidade empresarial, DVG lembrou as inúmeras mudanças vividas nas últimas décadas, evidenciando o divórcio que, hoje, marca a relação entre representantes e representados. No terreno, os desafios são concretos, e as metas perdem-se ou ganham-se todos os dias. Na arena institucional, tudo se formalizou, cristalizou e desvirtuou. DVG atribuiu a degradação ao facto de os protagonistas serem os mesmos “há muito tempo”. Porém, nessa denúncia perpassava algo bem mais contundente: pior do que estarem há muito tempo, é a certeza ostensiva de que estão há tempo demais!

Perante um modelo em irreversível falência, o desafio é o próprio futuro. E, a esse propósito, DVG foi altamente mobilizador. Ao demarcar-se da “crítica fácil aos actores que nos representam”, colocou a sua proposta bem para além desse registo mesquinho, feito à medida de um qualquer circunstancial ‘trade-off’ de vaidades. DVG apelou à urgência da mudança como imperativo de cidadania.

Portanto, o seu repto parece ser, antes de qualquer outro, o sentido da acção tornada inadiável – nessa medida, para ele, também, eticamente irrecusável. Mas é muito curioso que DVG não se vê como um Quixote solitário. Muito pelo contrário, ele chama pela sua geração e diz que é chegado o tempo dela. Aliás, em rigor, a sua própria disponibilidade não é assumida em nome individual, mas como imperativo decorrente de uma maturidade alcançada com outros. Fá-lo, também, e, porventura, sobretudo, em nome desses outros. Arredados, como ele, dos centros formais de decisão e da vida institucional.

O essencial da mensagem de DVG traduz-se na consciência dos deveres que decorrem da própria cidadania. Deveres que obrigam em razão do que que a vida proporcionou, numa relação directa com a quota-parte de talentos ou de oportunidades atribuída a cada um. Ora, nesse quadro, DVG tem enormes obrigações. E, por isso, o que ele diz tem – precisamente porque é ele quem diz – um alcance imenso.

Resignados por natureza, a nossa tendencial reacção à imutabilidade de protagonismos e discursos promove o afastamento, mas não impõe a ruptura. Obedecendo a essa índole ancestral, o país real distancia-se dos seus representantes, sem verdadeiramente questionar o seu estatuto e a sua legitimidade. É uma coisa surda, mas caracteristicamente inconsequente. DVG surge, pois, em claro desafio desta ordem.

É hora de mobilizar, de intervir, de fazer. O tom e a lógica do que propõe são, completamente, novos. Importa concretizar, dar passos, chegar lá. Mas, decisivamente, importa assumir um desígnio. Estar disponível para ele e responder por ele.

É, aliás, esta atitude que marca toda a diferença. Diagnósticos, vamos tendo com fartura. Teorias a preconizar as melhores soluções e a propor caminhos para as atingir, sempre tivemos por excesso. Agora, gente que assuma o desafio de mudar, gente que corra o risco de fazer, isso foi o que sempre escasseou!

Quando DVG parece capaz desse rasgo, o país não pode distrair-se. Porque a oportunidade é histórica e, nessa medida, certamente irrepetível. Em causa estará, de novo, o óbvio. Porque é isso que tarda. E é isso que parece ser difícil.

Na verdade, todos sabem o que não vai bem, o que precisa de ser corrigido e, até, com uma ou outra variante, o que é preciso fazer para melhorar. Mas o facto é que, apesar disso, nada acontece. E não acontece porque falta a aitude de liderança que, fazendo a diferença, permite que as coisas mudem. As empresas portuguesas têm ineficiências graves, que são conhecidas. O nível médio dos gestores é preocupantemente baixo.

A produtividade mantém-se muito aquém do que, num mercado aberto, é determinado pelas exigências da competitividade. O emprego revela ainda muitas situações de precaridade. E mesmo os sectores mais apetrechados sofrem a contaminação de uma realidade que, à escala do país, permanece impreparada e vulnerável.

À beira de um futuro que se sabe implacável, a nossa economia vive a urgência da adaptação. E, para tanto, precisa, obviamente, de uma nova dinâmica. Dos empresários, das empresas, mas, sobretudo, porque é hora de tocar a rebate, do movimento associativo empresarial.

Disperso por centenas de associações, agregadas em estruturas federativas e confederativas determinadas por lógicas de poder atávicas, o movimento empresarial pode ter, finalmente, uma irrecusável oportunidade de regeneração. Com gente nova, capaz de protagonizar uma atitude intrinsecamente diferente, determinada por um imperativo de consciência que, no essencial, apenas obriga. DVG apelou à acção. Mas deixou claro que esta deve radicar em convicções e em responsabilidade. Ao convocar a sua geração, quer pô-la à prova. E ainda bem, porque é tempo também disso. Há que trazer para a arena pública gente que deu provas, gente que demonstrou ser capaz, gente consciente da necessidade de compromisso com a causa colectiva – é desses que o país não pode prescindir.

De resto, o êxito desta cruzada não é indiferente para a sorte de outros desafios. Designadamente, para o mais prioritário de todos eles: a política. Porque, como decerto DVG também percebeu, esta precisa, vitalmente, de uma profundíssima renovação. Igualmente inadiável e, para a geração de DVG, algo irrecusável.

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