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António Mateus antoniomateus@hotmail.com 02 de Agosto de 2005 às 13:59

Mundo de loucos

As primeiras chuvas de Verão tamborilavam-nos, bátegas gordas, sapudas, pescoço abaixo. Os poros torturados por aquela humidade sufocante dos trópicos, mais pareciam panelas de pressão, de repente mergulhadas em água fria, resfolgando a pressão assim lib

Kinshasa. Capital da potencial riqueza e, simultaneamente,  da maior miséria africanas.

A imagem do Pascale Fletcher atravessa-me o espírito. Aquele jornalista brilhante da agência Reuters, na esteira de quem cobri todas as rondas das negociações para retirada dos cubanos de Angola e independência da Namíbia.

Kinshasa, era nessa altura o nome da capital do então Zaire, agora Congo.

Poço sem fim de inimagináveis riquezas naturais, era pasto de um regime, descrito por Fletcher como cleptocrátrico. Mais a sul, Pretória ainda acreditava na sobrevivência do sistema de apartheid. Ao lado, figuras do MPLA e da UNITA acumulavam fortunas, em comissões e «colaterais» de uma Guerra pelo poder, que se arrastou quase trinta anos, deixando mais de dois terços dos angolanos (percentagem da população nascida após a independência do país) sem referencias morais, éticas e sociais de uma sociedade onde o respeito pela vida humana é determinante.

Na face índica, do subcontinente, Frelimo e Renamo ensaiavam a mesma dança, onde a principal diferença era a menor riqueza do bolo a fatiar e, por via disso, os investimentos e os apoios procurados por cada um dos actores ou a estes disponibilizados.

Durante meses a fio, a rota de Joanesburgo para Kinshasa ou Brazzaville foi um calvário logístico  para os raros jornalistas que acompanharam na íntegra todo este processo, testemunhas do virar da História no subcontinente, que respirou os últimos bafos da Guerra fria.

A África Austral era por essas alturas um rodopio contínuo, transfronteiriço, de espiões, serviços secretos, golpes sujos, jogadas de bastidores,  governantes sem escrú- pulos e prepotentes e poetas revolucionários.

Na luta pelo poder, os fins justificavam todos os meios, mesmo que arrastando a multiplicação das penas arrastadas para os povos que os movimentos de libertação juraram servir, na hora da independência.

Quando a porta do avião se abriu na pista de Kinshasa, o ar artificialmente refrescado e seco a bordo foi sugado para fora, cedendo lugar a um bafo quente, húmido e semeado de cheiros doces, exóticos.

O nosso objectivo era chegar a Brazzaville, do outro lado do rio Congo, onde teria lugar mais um encontro entre as delegações de Pretória, Havana e Luanda, mediado pelo norte-americano Chester Crocker.

Sem ligações, a tempo, para «Brazza», atravessámos a rota «felliniana» da tal cleptocracia.  Imagine-se a ser recebido,  ao descer as escadas do avião, por um «facilitador», vestido com um fato de alta costura em seda.

Que nos pede logo os passaportes e os bilhetes para «acelerar» as formalidades alfandegárias.

Uma pessoa imagina que quem tem acesso a tal área restrita só pode ser agente do Estado, ou por este avalizado. Confia-lhe os documentos. E começa o calvário. Depois de longas conversas, redondas, informa-nos em francês que o senhor da alfândega tem sede e para se receber os passaportes carimbados só nos restam duas opções. Ou financiamos o saciamento das necessidades fisiológicas do agente ou teremos de aguardar que ele vá e volte de casa.

O fotógrafo que me acompanha começa a irritar-se, apesar de ter nascido em África. Barafusta e exige. O guichet da alfândega fica deserto num instante.

O funcionário, sedento, some-se para uma sala contígua, de onde nos chegam risadas, e um palavreado em língua local, que não entendemos.

O nosso «facilitador» encolhe os ombros. Insiste connosco, num francês polido, que o país é pobre e todos têm de alimentar a família.  Pergunto-lhe quanto custa a sede do funcionário. «Uns dez dólares americanos por cada passaporte já chegariam» - responde-me pronto. A humidade insuportável dilui-me as últimas resistências ao inevitável.  Somos os últimos nas chegadas do aeroporto. O «guia» recolhe as notas, chama o funcionário, no linguajar local, e os passaportes mudam de mãos. Para as do nosso anfitrião. Bem entendido. Que também teria uma sede a saciar, como aprenderíamos depois.

«Charles» explica-nos que esse é um modo de vida no país, onde até o presidente da República cobrava um imposto pessoal sobre todas as operações financeiras, incluindo donativos internacionais  aos mais pobres.

O meu companheiro irrita-se comigo. Ainda mais por eu procurar conciliar as coisas em vez  de meter os pés à parede. Eu argumento que há locais do Planeta, onde a gente não pode seguir os parâmetros do nosso Mundo. Das nossas culturas. Ele atira-me que é a última vez que alinha em «trabalhar em países de ladrões».

Mal sabia ele - e eu, confesso - que até ao cruzar do rio, ainda teríamos de financiar sedes em três controlos militares de estrada, para nos devolverem as malas que revolveram  de ponta a ponta. E depois de patrocinar o capitão do ferry-boat (além do bilhete de transporte já pago) para conseguir lugar na ponte, abrigados dos rebanhos e das cargas mais fantásticas que seguiam no piso-base.

A bordo, passageiros bípedes e quadrúpedes, de várias espécies, eram atirados de um lado para o outro pela voragem das águas barrentas que arrastavam lá fora, árvores imensas.

Segui o olhar do «meu» fotógrafo. Olhava um negro, sentado numa borda do ferry boat, com um cabrito ao colo, olhos fechados, sorriso rasgado, a sorver, feliz, os cheiros da brisa.

O Luís olhava-o com ar de menino. Preso naquela magia. Um mundo de loucura, onde ainda se é gente.

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