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Leonel Moura leonel.moura@mail.telepac.pt 29 de Setembro de 2016 às 20:40

Nações Unidas? 

Como a escolha não agrada aos governos de alguns países, de súbito aparece uma candidata saída do frio que, sem qualquer esforço ou exposição, tem garantido um lugar dianteiro.

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A civilização humana é bastante recente. Tem cerca de 10.000 anos. Mesmo assim conseguiu feitos notáveis. Tornou o humano na espécie dominante, estando presente em todos os cantos do globo. Alterou significativamente a própria natureza, através da agricultura e de um sistemático redesenho do ambiente. Desenvolveu um conhecimento profundo das coisas, erradicou doenças, prolongou a vida, gerou bem-estar e felicidade. Aventurou-se no espaço.

 

No entanto, em muitos outros aspetos a humanidade falhou. Cresceu demais, tornou-se numa praga com consequências nefastas para as restantes formas de vida, desequilibrou a ecologia sofrendo agora os seus efeitos, mas sobretudo não conseguiu organizar-se convenientemente. A humanidade não foi ainda capaz de resolver alguns problemas básicos, como o são a fome ou a guerra. Tanto mais incompreensível quanto se trata de questões que não dependem de condições naturais adversas, mas da organização social determinada pelos próprios membros da sociedade.

 

A falta de solidariedade e os conflitos constantes remetem a humanidade para uma condição primitiva e tribal que há muito devia estar ultrapassada. Infelizmente, não está.

 

Vem isto a propósito das Nações Unidas e da recente polémica sobre a eleição do novo secretário-geral. Isto porque as Nações Unidas são um bom exemplo da incompetência organizativa da humanidade.

 

Criada em 1945 para promover a cooperação e evitar guerras, a organização das Nações Unidas reproduz a visão do mundo que está precisamente na origem dos desequilíbrios sociais e dos conflitos bélicos. Conta, agora, com 193 países, mas na realidade só 5 têm poder efetivo de decisão sobre questões importantes. A maioria é cenário. China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia são os cinco países que têm estatuto permanente no todo-poderoso Conselho de Segurança. Não são eleitos ou escolhidos por ninguém e podem com o seu veto impedir qualquer resolução ou decisão maioritária. Este mecanismo tem permitido legitimar muitas guerras e crimes, impedindo qualquer intervenção. Pense-se no caso de Israel, cuja política criminosa tem sido permitida graças ao apoio incondicional dos Estados Unidos. Qualquer resolução que afete os interesses de algum dos membros não passa. Em suma, o sistema não funciona porque assenta no bloqueio e não na decisão democrática. Aliás, as Nações Unidas podem tentar "vender" a democracia ao mundo, mas não são uma organização democrática. São uma tribuna de discursos bem-intencionados, mas sem eficácia prática.

 

É por isso que esta organização não consegue evitar nenhuma guerra, não consegue resolver problemas com refugiados, os afetados pela fome, as vítimas de perseguições ou extermínios. É por isso que não consegue sequer reformar-se.

 

A escolha do próximo secretário-geral demonstra-o. Pretendeu-se, desta vez, realizar um simulacro de democracia através de entrevistas públicas aos candidatos e uma sucessão de votações que supostamente determinariam tendências maioritárias. Em todo esse processo António Guterres destacou-se. Mas, como a escolha não agrada aos governos de alguns países, de súbito aparece uma candidata saída do frio que, sem qualquer esforço ou exposição, tem garantido um lugar dianteiro. Se as Nações Unidas andavam à procura de credibilidade não será certamente assim que a vão encontrar. Aliás, se a manobra for adiante, o descrédito é total e a irrelevância das Nações Unidas será evidente para todos. Mas isso que importa a gente primitiva?

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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