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José Maria Brandão de Brito 07 de Janeiro de 2015 às 00:01

Não queremos deitar tudo a perder...

Esta frase da mensagem de Natal do primeiro-ministro toma-nos por ingénuos distraídos da dura realidade que há três anos enfrentamos e dá o tiro de partida para a campanha eleitoral das legislativas de Outono de 2015.

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O Dr. Passos Coelho ou perdeu o sentido da medida ou vive num país que a sua imaginação criou, simples e linear como a sua própria mente: "É verdade que temos ainda muito trabalho pela frente", mas o que é isso ao pé dos problemas que foram herdados de 2011?

 

Para o PM ficaram para trás as "nuvens negras" que nos ensombraram a existência nestes últimos três anos. Um futuro radioso está à nossa espera. Basta que não seja estragado o que com tanto sacrifício foi conseguido nestes anos. É verdadeiramente assombroso verificar até que ponto se pode mistificar a História e tudo se passa como se se tratasse da construção dum cenário, para trás do qual foram varridos os problemas que vão continuar a afligir uma maioria significativa de portugueses, enquanto à boca de cena fica um Portugal verdejante, de pobrezinhos mas honrados, como alguém dizia antigamente, assessorados por um friso de ministros complacentes com a sua própria imagem. 

 

O fraco crescimento económico, acompanhando aliás o da Zona Euro, o desemprego elevado, sobretudo nos jovens adultos mais ou menos qualificados, o crescimento dos índices de  pobreza, tal como dos da desigualdade, desapareceram como por encanto. Nem a consolidação orçamental, alfa e ómega da política de austeridade, foi integralmente conseguida, nem a dívida foi eficazmente combatida, bem pelo contrário, nem a reforma do Estado foi, sequer, seriamente abordada. Mas o mais grave é que  além de ideias vagas sobre o futuro, o PM não refere o combate à corrupção que ainda recentemente se manifestou ao mais alto nível da Administração, as falências (fraudulentas?) no sector bancário e quanto vamos ter de pagar por elas, e não dá uma única razão, não aponta um único objectivo estratégico, que justifique perante os portugueses porque não "podemos deitar tudo a perder".

 

É esta política económica de empobrecimento contínuo que temos de defender? É nesta sociedade anémica e sem nervo, num País de resignados, cada vez mais desigual que, neste ano de 2015, queremos continuar a viver? Não nos deixemos enganar por algumas medidas, de aparente alívio do pesado sacrifício durante anos suportado, que surgiram dispersas para conquistar votos aos incautos. A campanha eleitoral começou e quanto às medidas, mais cedo ou mais tarde, vamos ter de as pagar. O que se esperava deste discurso/mensagem era um apontar de caminhos e a estratégia que devia ser adoptada para sair da crise: encarar de frente os problemas e mostrar quais poderão ser as soluções.

 

Face às grandes incógnitas que 2015 nos oferece, perante as várias eleições legislativas que estão no horizonte e os problemas com que se debatem as suas segunda e terceira economias, respectivamente a França e a Itália, existe a esperança de que na UE, e sobretudo na Zona Euro, a situação comece a clarificar-se e a normalizar-se. Os perigos são demasiado evidentes para poderem ser ignorados. Desta vez, honra lhe seja feita, até a chanceler Merkel, as identificou sem paliativos.

 

Uma coisa tenho por certa: os EUA, com uma política que era a antítese da que foi imposta na UE, estão a crescer a uma taxa perto dos 4% (último trimestre de 2014) enquanto a economia da UE está quase estagnada e em riscos de deflação. Para os próceres das políticas de austeridade talvez este facto constitua o argumento decisivo para lhes abalar a fé!

 

A frase do primeiro-ministro significa que quem se afastar da ortodoxia miserabilista da austeridade perderá tudo o que foi conquistado... quando afinal, como é dos livros, a montanha se limitou a parir um rato. É neste quadro que nós portugueses vamos ter a oportunidade de iniciar um caminho de mudança e de esperança.

 

Economista. Professor do ISEG/ULisboa

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