António Moita
António Moita 12 de março de 2018 às 20:50

Não quero viver da política 

Será um exagero dizer que não há gente boa na política. Mas não será mentira afirmar que a maioria da gente boa foge da política.

O exercício da atividade política deveria estar reservado aos nossos melhores. Ou não fosse através dela que aceitamos o governo da sociedade naturalmente legitimado pelo voto popular em ambiente de liberdade. Ou não tratasse a política, como dizia Hannah Arendt, da convivência entre diferentes.

 

Quem não é "político profissional", independentemente da sua formação, idade, condição económica ou social, tem preconceitos contra os políticos. "É da vida", como diria o nosso António Guterres. Mas a verdade é que se queremos que sejam os melhores a governar temos de perceber que é também a nós que cabe criar condições para que tal possa acontecer.

 

Ser "ator político" deveria resultar de um ato de vontade. Primeiro do próprio, depois de quem nele confia. A duração da intervenção deveria estar diretamente ligada à conjugação destas duas vontades. E quando pelo menos uma delas não existisse, a condição de "ator político" deveria ser interrompida. Temporária ou definitivamente.

 

Deveria também ser condição para o exercício da atividade política, ver garantida a salvaguarda da liberdade individual de quem desempenha funções públicas. Desde logo no plano financeiro. A capacidade de fazer escolhas que afetam uma comunidade tem de ser feita por quem não dependa de nenhum tipo de interesse particular.

 

Nestas circunstâncias, a nobre decisão de entrar na vida pública ao serviço de um bem maior não pode levar consigo o risco de colocar em causa toda uma carreira profissional ou provocar danos por vezes irreparáveis na vida familiar. A liberdade que é condição de entrada deverá ser a mesma que permitirá dizer adeus. Porque se assim não for, dificilmente encontraremos quem queira entrar "na política" por bons motivos ou quem dela aceite sair de forma espontânea e natural.

 

É fácil falar destes assuntos de forma demagógica o que não ajuda a resolver o problema. Mas é urgente perceber que discutir e resolver este assunto fará bem a toda a comunidade. Para que um dia nos possamos rever nos políticos que escolhemos e para que estes possam continuar a decidir livremente sobre a nossa vida enquanto exercem funções e sobre a deles no momento em que optam por mudar de caminho.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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