Leonel Moura
Leonel Moura 02 de junho de 2016 às 19:52

Não assuntos 

O país perde demasiado tempo com polémicas de pouco ou nenhum interesse. É isso que caracteriza o atraso. Porque o tempo que se consome com historietas é o mesmo que falta para discutir o que realmente importa.

Veja-se o caso dos colégios amarelos. Ao Estado compete garantir escola pública para todos. Ponto. Não compete financiar negócios privados. Ponto. O resto resume-se a quilómetros, freguesias, contratos temporários, não o são todos?

 

A excitação que para aí vai explica-se em duas palavras: ideologia e Igreja. A direita acha que os privados fazem tudo melhor do que o público. Tem-se aliás visto na banca. A Igreja arranjou no ensino um excelente negócio que dá milhões e confissões. Não o quer perder. E, ponto. Por estas bandas não há mais nada de relevante. Sobretudo não há discussão sobre a educação de hoje e do futuro. Debate que é certamente um dos mais importantes do momento e sobre o qual devíamos refletir a sério. Porque é aquele que nos pode tirar da miséria ou, a não ser feito, tornar-nos ainda mais dependentes de quem o faz.

 

O ensino precisa de um sobressalto. Urgente. As aceleradas mudanças geradas pela revolução digital assim o exigem. Até aqui assente no conhecimento do passado e nas tradicionais e ineficientes reformas para a década, o ensino tem perdido o passo mostrando-se incapaz de acompanhar o extraordinário desenvolvimento científico e tecnológico. Estamos a educar jovens para contextos, de civilização e ocupação, que já não existem. Estamos na verdade a formar inadaptados. Desocupados futuros. É isto que devíamos debater, todos. É isto que devia preocupar os políticos, à esquerda e à direita.

 

Outro não assunto é o das 35 horas. Desde logo porque quem mudou, de forma pouco pensada e nada inteligente, foi o Governo anterior que imaginou que mais horas de trabalho equivaliam a maior produtividade. Não é assim. O Simplex, por exemplo, é muito mais eficaz já que a produtividade está intimamente ligada à organização e não ao tempo. Muitas horas a carimbar papéis não é mais produtivo do que uns minutos a clicar num rato. Em suma, o futuro da administração pública será digital ou não será nada. Ou melhor, será alguma coisa, mas precisamente aquela que o cidadão detesta.

 

A direita não percebe isto. Ou percebe, mas está apostada no retrocesso civilizacional. Num fenómeno que afeta muitos outros países. Vide Trump nos Estados Unidos ou extrema-direita por essa Europa fora. Como se andar para trás fosse a única forma de andar para a frente. Definitivamente este mundo está cada vez mais perigoso e mais estúpido.

 

Mas certamente o mais extraordinário não assunto que nos assola todos os dias é o de saber se a coligação se desfaz ou não se desfaz, se o défice dispara ou não dispara, se a economia arranca ou não arranca, se a Europa impõe sanções ou não impõe. Já não há pachorra para tanto tempo de antena desperdiçado em "nonsense". Para tanto comentador a repetir os mesmos argumentos absolutamente incomprovados. Os media deixaram de tratar de factos ou de dar notícias. Deleitam-se a debater hipóteses, cenários, desejos disfarçados ou declarados de que tudo corra mal a Portugal. Passos Coelho e Assunção Cristas passam os dias a anunciar catástrofes, mas são incapazes de contribuir com algo positivo para o futuro do país. Temos neste momento a direita mais inútil que jamais existiu desde o 25 de Abril. E até o Presidente Marcelo, que é de direita e foi eleito pela direita, está sem paciência para os aturar. Ponto.

 

Artista Plástico

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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