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Sérgio Figueiredo 23 de Junho de 2006 às 13:59

Nascidos a 6 de Julho

Finalmente! Uma boa notícia vinda da função pública. Uma greve nacional. Sim, as pessoas estão a sentir-se tão desconfortáveis com a sucessão de medidas do Governo, dos vários governos aliás, sentem-se de tal forma injustiçadas, que decidiram dizer «basta

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As três estruturas sindicais convocaram, então, os trabalhadores do Estado para uma greve geral no dia 6 de Julho. É de aplaudir. É de louvar. É, até, de incentivar à mobilização. Todo o funcionário público que não aceita ser o «bode expiatório» da crise deve protestar.

O motivo mais próximo desta onda de indignação é o novo regime de mobilidade que o Governo socialista criou. Mas a greve resulta de um acumular de ofensivas. O aumento da idade de reforma para os 65 anos. O congelamento das progressões de carreira. O arrocho salarial.

Além da desconstrução dos regimes especiais, do retrocesso dos esquemas de previdência e saúde em grupos profissionais importantes e bastante populosos: os professores, os polícias, os juízes, os enfermeiros, os militares.

Enfim, perante uma tão ampla frente de medidas lesivas dos seus interesses, a pergunta sem resposta era: como é que os sindicatos da função pública ainda não desferiram um contra-ataque ainda mais abrangente e hostil? Chegou, pois, a hora da verdade. E o Governo será encostado à parede.

O resto da sociedade agradece, porque os sindicatos da função pública aceitam assim expor os motivos da sua revolta. Suscitam a sua discussão. Convocam as televisões e as rádios para o debate. Os jornais para a reflexão.

E quando cada um de todos os outros portugueses – que, por qualquer circunstância da vida, se safou do infortúnio de seguir uma carreira profissional da Administração Pública – perceber o que está em causa, quando comparar com a sua própria situação, é também razoável que devolva a questão ao remetente: e pode o resto do país fazer greve à função pública?

Evidentemente que a interrogação é tão absurda como mobilizar todos os empregadores deste país para uma greve geral contra os seus trabalhadores. No caso do sector público, bastava reunir os contribuintes num boicote geral aos impostos.

E é neste plano, é exactamente neste nível, que as três estruturas sindicais colocam as suas reivindicações: temos um estatuto diferente, queremos defender essa diferenciação, isso representa um determinado custo à sociedade, portanto paguem.

Esta é a clarificação que uma greve geral permite fazer. O extremar de posições parte de um exercício de vitimização. Neste caso vai acabar numa situação de isolamento. A greve é convocada contra o Governo. Mas é perante o país que o funcionário público ficará exposto.

Porque não aceitam eles a mobilidade no emprego, quando eu, a qualquer momento, posso perder o meu? Perguntará um dos 1.200 operários da Opel que, provavelmente, já estará nessa altura com confirmação de desemprego certo.

Porque se indignam eles com o facto de, dentro de dez anos, passarem à reforma aos 65, quando eu já tenho hoje a certeza que o sistema geral de previdência irá cortar-me na pensão se não continuar a trabalhar além daquela idade?

Muitos têm sido aqueles que se insurgem contra as generalizações. E com razão, porque há aqueles que são funcionários e há os outros que nem sequer tentam funcionar. A 6 de Julho teremos a ideia de quantos são uns e quantos são outros. Viva a greve!

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