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Francisco Seixas da Costa 18 de Julho de 2019 às 19:49

Necessidades

Aprendi que não há boa política externa sem uma boa política interna. Não é possível sustentar, lá fora, uma voz com uma mínima audição sem que tenhamos a “casa arrumada”.

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O termo da legislatura convoca, com naturalidade, a tentação de avaliar as tendências mais marcantes da política externa seguida pelo Governo do Partido Socialista, ao longo destes quatro tão atípicos anos na vida portuguesa.

 

Aquando da formação do Governo, o anterior Presidente da República colocou um conjunto de "condições", em termos de compromissos externos, para aceitar empossá-lo. Nelas se incluíam, sem surpresa, as relações com a Europa, a ligação à NATO e ao mundo lusófono, com a diáspora associada. A presença do PCP e do BE na maioria parlamentar para viabilizar o novo executivo ter-lhe-á criado o temor de que daí pudesse resultar alguma deriva nociva à postura internacional do país. Mas não só a ele.

 

À época, o embaixador americano em Lisboa, Robert Shearman, na forma com que alguns diplomatas de Washington se permitem comentar a vida política dos países que os acolhem, deixou também alertas sobre as preocupações dos EUA na mudança do curso governativo em Portugal. Posso imaginar o que teria sucedido se, um ano depois, o nosso embaixador em Washington tivesse manifestado publicamente a inquietação portuguesa sobre os riscos para o mundo da eleição de Trump...

 

Respondendo-lhe num artigo que publiquei no Diário de Notícias intitulado "Durma bem, Bob!", embora confessasse não ser, à época, "um entusiasta desta possível solução governativa", deixei claro que não alimentava "a mais leve dúvida de que, aconteça o que acontecer, um eventual governo socialista se manterá fiel a todo os compromissos internacionais de Portugal, da NATO à UE [...]. O PS tem um historial de responsabilidade no quadro internacional que não aceita lições de ninguém, de dentro ou de fora". Eu estava certo, o diplomata americano estava, como se viu, bem errado.

 

Augusto Santos Silva não era uma escolha óbvia para as Necessidades. Embora com uma prestação anterior positiva num ministério de soberania como é o da Defesa Nacional, somada a larga experiência noutras pastas, carregava consigo a imagem de um tempo mediático tenso, em que funcionou como firme contraponto oposicionista ao radicalismo da governação conservadora. Muitos sobrolhos se carregaram ao verem surgir o seu nome na chefia da diplomacia portuguesa. Mas foi sol de pouca dura. Santos Silva, um político de imensa qualidade intelectual e com elevado sentido de Estado, rapidamente se adaptou à nova função, transmitindo uma forte dose de confiança a uma casa que tem uma grande sensibilidade, não apenas para perceber quem a respeita, mas igualmente quem defende o património de interesse nacional que constitui a razão da sua existência. Santos Silva consagrou-se como um excelente ministro dos Negócios Estrangeiros e, no executivo, foi uma frente segura que muito facilitou o trabalho internacional de António Costa.

 

Aprendi que não há boa política externa sem uma boa política interna. Não é possível sustentar, lá fora, uma voz com uma mínima audição sem que tenhamos a "casa arrumada". Foi a evolução favorável das nossas contas, pela gestão de Mário Centeno, que deu espaço para António Costa se afirmar no plano europeu, muito para além da família socialista. Santos Silva cumulou isso com uma gestão muito rigorosa dos restantes dossiês externos - e é também justo creditar aqui a forte ajuda que Marcelo Rebelo de Sousa deu a toda esta operação de conjunto, em favor dos interesses portugueses.

 

Num mundo em rara turbulência, Portugal esteve muito bem, nesta legislatura, na ordem europeia e internacional. Relembro, a título de breves, e longe de exaustivos, exemplos, a essencial ajuda dada à eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU e de António Vitorino para diretor-geral da OIM, o perfil europeu elevado demonstrado, a gestão da delicada questão venezuelana, a atenção nos passos bilaterais com Angola, China ou Índia, a vitalidade imprimida na área das Comunidades Portuguesas, a atenção às parcerias internacionais na cooperação para o desenvolvimento, a ação na política da língua, os esforços continuados e bem-sucedidos na internacionalização da nossa economia. A diplomacia portuguesa está sólida e coerente, o que revela que é muito bem orientada.

 

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