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Cristina Casalinho - Economista 10 de Janeiro de 2014 às 00:01

Nem cardos, nem rosas

Mudanças mundiais a nível das principais fontes de energia primária poderão vir baralhar as contas da competitividade económica global, conferindo ao mundo desenvolvido oportunidades para contrariar os riscos de estagnação económica.

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Lawrence Summers, num artigo recente, debate a possibilidade de estagnação secular das economias desenvolvidas e as limitações dos instrumentos tradicionais de política monetária e orçamental. O caso japonês das últimas três décadas é exemplar na ilustração destas condicionantes. Com efeito, políticas monetária e orçamental agressivas, materializadas em persistentes taxas de juro perto de zero e elevada despesa pública, designadamente na construção de infra-estruturas, não promoveram mais que estabilização do produto, num contexto caracterizado por demografia adversa, alto nível de bem-estar e forte endividamento (a despeito de considerável taxa de poupança das famílias).

As economias avançadas, concretamente a Europa, defrontam-se com a possibilidade de um período prolongado de reduzido crescimento. À semelhança do Japão, os instrumentos tradicionais de política económica poderão não produzir os resultados desejáveis. A restrição das taxas de juro não negativas pode impedir custos de financiamento suficientemente baixos para incentivar a expansão do investimento.

 

Perante uma procura local estrangulada pelo envelhecimento populacional e estagnação de rendimento, o apelo à ampliação da capacidade produtiva circunscreve-se às exportações. Os países que melhor têm enfrentado estes condicionalismos inscrevem-se no grupo dos maiores exportadores mundiais, tendo prosseguido uma estratégia consistente de alargamento dos mercados de destino às economias emergentes com destaque para a Ásia. BRIC ou N11 têm suportado as exportações teutónicas e nipónicas. O recente surto exportador da Ibéria também reflecte esse fenómeno. A despeito do crescimento das economias emergentes poder vir a defrontar menor dinamismo, deverá ser propulsionado mais pela procura doméstica que alicerçado em exportações, favorecendo o rebalanceamento global.

Se as taxas de juro poderão ser insuficientes para catalisar o investimento, a opção orçamental está comprometida pelo elevado nível de endividamento público, cuja resolução é dificultada pelo ambiente de baixa inflação. Em 2013, a dívida pública ter-se-á situado em 229% do PIB no Japão, 110% na área do euro, 95% no Reino Unido e 90% nos EUA. Por outro lado, o fenómeno de desalavancagem tende a promover fluxos de devedores despesistas para credores poupadores, desacelerando a procura.

 

Acresce que o movimento no mundo ocidental se tem desenrolado lentamente. Em poucos países assistiu-se à contracção da dívida global, tendo os avanços partido do sector financeiro e famílias. Desde 2009, segundo dados do Deutsche Bank, a dívida do sector privado caiu 41 pontos percentuais do PIB nos EUA, 35 p.p. no Reino Unido, 9 p.p. na Europa e 4 p.p no Japão. A queda do endividamento nos dois primeiros deveu-se essencialmente a falências e perdões de dívida – acontecimentos fortemente restringidos na Europa e Japão. Este modelo de gestão da crise financeira implica ajustamentos mais profundos, mas menos lentos. Saliente-se ainda que o incremento da despesa pública em muitos casos, como o exemplo japonês evidencia, pode não resultar em forte crescimento. Mais: se os EUA carecem de investimento infra-estrutural em estradas, ferrovias, aeroportos, ou geração e distribuição de electricidade; na Europa, as necessidades de despesa pública são mais orientadas para os custos associados ao desafio do envelhecimento populacional.

O facto de as políticas tradicionais estarem saturadas nas economias desenvolvidas não quer dizer que não existam áreas de promoção de crescimento ou que não existem sinais positivos relativamente ao futuro da expansão económica no mundo avançado. Os principais propulsores de crescimento são, tendencialmente, a demografia e o acréscimo de produtividade.

 

No que se refere à demografia, existe ampla evidência, nos países nórdicos e em França, de como incentivos públicos consistentes e bem dirigidos produzem resultados muito satisfatórios, permitindo inverter tendências enraizadas.

 

Relativamente ao incremento da produtividade, emergem indícios positivos de progressos ao nível energético. A exploração de depósitos de xisto (xisto betuminoso), com crescimento anual de capacidade de extracção de 1 milhão de barris/dia, poderá elevar, dentro de alguns anos, os EUA a maior produtor mundial de petróleo, cimentando uma onda de re-industrialização que parece estar a iniciar-se. Na Alemanha, o abandono da opção nuclear tem implicado o regresso ao uso do carvão, beneficiando dos progressos registados nos últimos anos, os quais proporcionam revelantes ganhos de competitividade a este combustível fóssil. Mudanças mundiais a nível das principais fontes de energia primária poderão vir baralhar as contas da competitividade económica global, conferindo ao mundo desenvolvido oportunidades para contrariar os riscos de estagnação económica.

* Economista


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