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Fernando Braga de Matos 16 de Julho de 2010 às 11:53

Neomarxismo "and all that jazz"

(Onde o autor, passeando pelos comentários sobre as jornadas parlamentares do PS, reparou que foi uma reunião tão esquerdista que parecia neomarxista - categorização sem pés ou cabeça, e tão rigorosa como outra muito em voga, a de "neoliberalismo" - correspondendo ao conceito estratégico socrático que é "vai para onde estiver virado".)

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"Não vejo razões para não ter confiança no País."
José Sócrates, 14/7/10

"Não vemos razões para ter confiança em José Sócrates."
O País, 14/7/10

Quando se traz o tema do confusionismo ideológico, o qual pode aparecer tanto de boa-fé como melifluamente, lembro-me sempre duma cena da vida real, nos anos da brasa do PREC, quando decorria um comício do PS, no Porto, no antigo Estádio das Antas, paralelo ao célebre na Fonte Luminosa, com Mário Soares. O cabeça-de-cartaz era Manuel Alegre e eu estava nas bancadas com o meu saudoso amigo, o brilhante Lucas Pires.


O local abarrotava, integrando todos os inimigos do PCP e só excluindo mesmo os agentes da Pide, pois estes encontravam-se dentro, sem direito a saídas precárias. Num certo momento, Alegre, reagindo contra palavras de ordem cada vez mais "reaccionárias", proferiu um ponto de ordem, no sistema de alta voz: "Partido Socialista, partido marxista." No degrau abaixo, encontrava-se uma fila de senhoras da alta burguesia, recheadas de casacos de pele ofensivos na situação. E então o que se seguiu, em cena "Saturday Night Live": o mulherio em frente, díspar quanto ao punho a erguer, repetia em uníssono gritado o dito slogan. Eu e o Francisco saímos a comentar o sucedido, galhofando. E o que pensámos foi, com grande formulação científica: se estes tipos soviéticos ganharem, arrancamos para o Brasil, até tínhamos o mesmo escritório da advogados em S. Paulo.


Com o País altamente enervado e o Governo desnorteado, que fazem estes "sucessores" dos grandes homens do PS que no PREC lideraram a frente civil contra o comunismo? O esquerdismo do PS, nesta época, depende do modo como Sócrates acorda e a agenda do dia recomenda, o que se podia chamar, na linha do confusionismo ideológico reinante, "ideologia táctica" (conceito que não tem qualquer conteúdo, mas não há problema, pois, na espuma dos dias, ninguém repara nisso).


O PS é muito melhor que o seu secretário-geral, é o grande partido da democracia portuguesa, mas definhou para a seita de "Irmãos Metralha" que se encontra em vários lugares de poder. Pois bem: nas jornadas parlamentares de há dias, o PS lá guinou à esquerda, sem qualquer causa coerente, e em modo esquizofrénico. Não há outra qualificação aderente, visto a dita viragem ocorrer no momento em que o Governo cumpre o plano do eixo franco-alemão.Temos, pois, uma governação à direita, embora sob o abrigo de palavreado esquerdista. Também se disse muita coisa sem conteúdo, como a irritante e confusionista designação de "neoliberalismo". Aqui criou-se o espantalho duma pretensa ideologia danosa, que se cola a comportamentos e ideias de modo a desmerecer sem argumentar. O silogismo é este: o neoliberalismo é mau (sem definir o conceito); a coisa X é da receita neoliberal; logo, a dita coisa é má. Claro que, sendo-se instado, arranja-se facilmente um núcleo de ideias ajustado à palavra, mas sem haver a adopção geral pelos peritos, a definição à vontade do freguês é pura e simplesmente inadmissível.

Enfim... Este PS tem tanto interesse como uma coca--cola sem gás.




Advogado, autor de "Ganhar em Bolsa" (ed. D. Quixote), "Bolsa para Iniciados" e "Crónicas Politicamente Incorrectas" (ed. Presença).
fbmatos1943@gmail.com



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