Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Mário Negreiros 12 de Novembro de 2004 às 13:59

Neurónios apodrecidos

Se quem promove as praxes é idiota, quem gosta de se submeter a elas é irremediavelmente imbecil. A conversa de que as praxes são rituais de integração não convence ninguém.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Ana Francisco foi chamada de «porca». Disseram-lhe que não merecia comer senão merda. Isso posto, mandaram que se ajoelhasse sobre as próprias mãos e cobriram-na de esterco de porco.

A cena não se passa nalguma prisão venezuelana e Ana Francisco não cometeu qualquer crime. Limitou-se a estudar para ter notas para entrar na Escola Superior Agrária de Santarém. As cenas descritas no primeiro parágrafo são, simplesmente, uma praxe.

Ana Francisco apresentou queixa à Polícia e, segundo se noticia agora, os autores da praxe terão que responder em Tribunal. Antes já tinham sido objecto de um processo disciplinar, no âmbito da própria faculdade, e condenados a 15 dias de suspensão (Oh!!! Quinze dias de suspensão!!! O que será preciso fazer para se ser expulso de uma faculdade portuguesa?).

Haverá, certamente, muita gente que, submetida a idiotices semelhantes, tenha ficado calada. Haverá até os que acharam graça. E, ainda pior: haverá os que não acharam graça nenhuma e que, por falta de neurónios ou de carácter ou de ambos, não pensaram em nada a não ser tornarem-se veteranos para descontarem nos novatos seguintes as humilhações sofridas.

As humilhações impostas a Ana Francisco (e, com ela, só naquela ocasião, contra outros 30 estudantes) são de uma brutalidade tão evidente que dispensa comentários (e exige, claramente, punição maior do que os cúmplices 15 dias de suspensão impostos pela Faculdade). Mas a matéria de que é feita essa é a mesma de que se fazem todas as outras praxes. A diferença restringe-se à dose, ao grau, à concentração de idiotice, mas a idiotice é sempre a mesma, e é a de quem, por falta de outros meios, julga legítimo, bom, agradável, didáctico, afirmar-se através da humilhação do outro.

Se quem promove as praxes é idiota, quem gosta de se submeter a elas é irremediavelmente imbecil. A conversa de que as praxes são rituais de integração não convence ninguém. É claro que há quem se sinta integrado depois das praxes, mas terá sido apesar, e não através das praxes que se integrou. Quem quer integrar convida, não humilha.

Mas nem tudo está perdido. Há uma organização estudantil chamada MATA (Movimento Anti-Tradição Académica). Pela primeira vez, desde que me tornei adulto (ou quase), tive vontade de me integrar a uma organização associativa. Gostei do MATA, em primeiro lugar, por se mobilizar contra uma coisa que me parece abjecta (as praxes), além disso, por afrontar, de maneira tão desassombrada, logo a partir do nome, a sacro-santa-omni-justificadora «tradição académica». Morra a tradição académica!, gritarei num momento de entusiasmo juvenil (ou senil, mas que seja entusiasmo, caramba!), viva o MATA! Ou, como se lê num muro da mais tradicional (e tradicionalista) universidade portuguesa: «Coimbra não é mais o que nunca foi».

PS: Estacionar em cima do passeio já começa a merecer o estatuto de tradição portuguesa. MATA!!!

PPS: Em que porcaria de escola terão andado esses tantos que me proíbem, com os seus carros, de andar pelo passeio?

Mais artigos do Autor
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias