Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 15 de fevereiro de 2018 às 20:25

No passo da Gulbenkian cabe a mudança do mundo

Gulbenkian soube ler como poucos os sinais de mudança no seu tempo, acabando por modelar o desenvolvimento da indústria de petróleo no Médio Oriente. É por isso apropriado que o passo dado pela fundação que Gulbenkian legou, vender o negócio do petróleo, nos faça ver como está a mudar o mundo – na energia, na finança e na geopolítica.

1. Calouste Gulbenkian não foi só um homem de negócios que acumulou uma enorme fortuna com o petróleo. Gulbenkian soube ler como poucos os sinais de mudança no seu tempo, acabando por modelar o desenvolvimento de toda a indústria de petróleo no Médio Oriente. É por isso apropriado que o passo dado pela fundação que Gulbenkian legou, vender o negócio do petróleo, nos faça ver como está a mudar o mundo - na energia, na finança e na geopolítica.

 

2. A razão principal da venda não é a vontade de desligar uma fundação filantrópica de uma fonte poluente de financiamento, mas sim a de sempre: dinheiro. A Partex é accionista de um projecto industrial exigente. A pergunta que surgiu na fundação em 2014, quando a Partex renegociou uma concessão no Abu Dhabi, foi esta: vale a pena continuar a investir? Com mais duas concessões a expirar no horizonte, a pergunta não era retórica: ficar era investir centenas de milhões num negócio arriscado, em plena transformação pressionada pelas energias renováveis. Como disse há dias o CEO da francesa Total, em 2040 vai vender-se menos petróleo e quem ficar terá de investir noutros tabuleiros. Vender por um bom preço é, por isso, uma oportunidade "irrepetível", como admitiu uma fonte da fundação à Sábado, para sair em alta.

 

3. A nacionalidade do comprador é um sinal da mudança geopolítica em curso. O presidente da Partex, António Costa e Silva, explicou em entrevista ao Público que uma das razões que levou o conglomerado chinês CEFC a interessar-se pela empresa foi o facto de os seus activos, espalhados pela Ásia Central, seguirem a Rota da Seda. Por aqui temos prestado zero de atenção a um dos mais ambiciosos planos de sempre para conquistar influência: a criação pela China, por terra e mar, de uma versão moderna da Rota da Seda, a "Belt and Road", que liga aquele país à Europa. Este projecto transcontinental de integração económica, feito à medida dos interesses da China, é uma das grandes mudanças do nosso tempo - e terá impacto na Europa.

 

4. A venda da Partex põe, por outro lado, o futuro da Gulbenkian inteiramente nas mãos dos mercados financeiros. E na forma de gestão dos investimentos da fundação está outro reflexo de uma mudança sísmica, desta vez no mundo financeiro. Em 2013, a Gulbenkian concluiu que os gestores que geriam a sua carteira comprando e vendendo acções não conseguiam bater o andamento do mercado - e passou a maioria dos mandatos de gestão activa para gestão passiva, uma estratégia mais barata que se limita a replicar o mercado. Meio mundo fez isto. O dinheiro em fundos ETF, a forma mais comum de gestão passiva, subiu de 640 mil milhões para 2,9 biliões de euros na última década. Vários ETF são geridos por programas de computador. No debate sobre esta transformação há quem avise que distorce a percepção de risco no mercado e que pode contribuir para quedas maiores em momentos de turbulência. 

 

5. A venda da Partex é também um sinal do poder crescente da pressão pública contra as energias mais poluentes. Um ano antes da Gulbenkian foram os Rockfeller, outra fortuna historicamente ligada ao petróleo, que saíram da Exxon, depois de uma longa batalha com a empresa que acusaram de manipular estudos sobre o aquecimento global. Também a maior fundação do mundo, a Bill e Melinda Gates, abandonou as suas participações na área depois de o The Guardian as expor. A imagem não foi a principal preocupação da Gulbenkian, mas também acabou por pesar. Tudo pesado, talvez o próprio Calouste Gulbenkian, no improvável papel de presidente de uma fundação, tivesse feito hoje a mesma escolha.  

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
Alentejano 19.02.2018

típico SJW só é mau quando é feito pelo homem branco quando é feito por minorias é apenas incompreensão cultural! Se é racismo e apropriação indevida é racista e apropriação indevida e a china está a lixar o 3º mundo e ninguém diz nada. Hipocrisia pura.

Alentejano 19.02.2018

ora voce que é sempre da tal igualdade de resultados a falar da "nova rota da seda" esqueceu-se de referir que é mais uma forma de neo-colonialismo que está a arruinar a África com dividas astronómicas a isolar e nulificar o potencial de crescimento indiano e a criar clivagens no sudoeste asiático.

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