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No reino do petróleo, tudo está bem quando acaba em bem

Perante o abrandamento do crescimento económico a nível mundial, houve muitas manchetes que chamaram a atenção para o facto de a redução acentuada do preço do petróleo poder constituir o primeiro prenúncio de uma procura global inferior às expectativas.

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Perante o abrandamento do crescimento económico a nível mundial, houve muitas manchetes que chamaram a atenção para o facto de a redução acentuada do preço do petróleo poder constituir o primeiro prenúncio de uma procura global inferior às expectativas. A queda dos preços do petróleo tem contribuído para agravar o receio, pelo menos nos países desenvolvidos, de que a pressão de desinflação terá vindo para ficar e poderá prejudicar ainda mais o crescimento económico. No entanto, tudo parece indicar que a redução do preço do petróleo é mais um sintoma do excesso de oferta do que da redução da procura.


Existem dois índices de referência principais sobre os preços internacionais do petróleo: o West Texas Intermediate (WTI), que é um indicador norte-americano, e o Brent, que diz respeito ao petróleo do Mar do Norte. Os valores destes dois índices de referência costumavam andar muito próximos, mas, devido às diferenças na qualidade do petróleo e aos problemas que têm afectado a capacidade de refinação, actualmente considera-se que o preço do barril do petróleo Brent reflecte com maior precisão o preço real. No entanto, não deixa de ser verdade que ambos os índices de referência caíram rapidamente nos últimos meses. O WTI baixou 16% desde o início do ano, enquanto o Brent caiu 23%, chegando a atingir os 84 dólares por barril, ou seja, o seu valor mais baixo em quase quatro anos.


A recente queda surpreendeu tudo e todos. É verdade que a situação económica piorou nalguns países, mas não de modo a justificar a actual baixa de preços. Como o preço do petróleo é calculado em dólares, a valorização do dólar também provoca uma redução do preço desta matéria-prima. No entanto, tal como sucede com muitas outras categorias de activos, o preço de equilíbrio de um barril de petróleo pode ser determinado de forma simplista pela oferta e pela procura, e uma queda dos preços poderá resultar de um excesso de oferta ou de uma redução da procura. Neste caso, é o primeiro factor que tem provocado a queda do preço.


Considera-se que a Arábia Saudita desempenha o papel de produtor de petróleo oscilante, na medida em que reduz ou aumenta a sua produção consoante a produção total a nível mundial, para manter o preço do petróleo a determinado nível. No auge da crise na Líbia, por exemplo, a Arábia Saudita aumentou a produção para compensar a queda da Líbia. O problema é que não voltou a fechar a torneira, o que conduziu ao excesso de oferta que se nos depara actualmente, pois o petróleo líbio começou a fluir novamente. A Arábia Saudita poderá estar a jogar com o aumento do risco geopolítico no Médio Oriente. Afinal, por que motivo haveria de baixar a produção, quando existe a possibilidade de o conflito no Iraque vir a provocar um choque petrolífero?


No entanto, há quem avente a hipótese de a Arábia Saudita estar deliberadamente a manter o preço baixo para desincentivar a oferta dos países produtores não pertencentes à OPEP. Nos últimos anos, temos assistido a um crescimento excepcional desta oferta, sobretudo do petróleo de xisto norte-americano. A produção de petróleo de xisto norte-americano é mais sensível às variações de preço, sobretudo no que diz respeito aos pequenos produtores, embora seja provável que estes consigam suportar o actual nível de preços ou talvez mesmo baixá-lo. O ponto de equilíbrio para os produtores norte-americanos poderá ser mais baixo do que a Arábia Saudita pensa, pois os avanços tecnológicos do processo de fracturação hidráulica reduziram os custos de extracção de petróleo.


A argumentação sobre a queda do preço do petróleo negligencia normalmente um ponto importante: o benefício que esta redução traz às empresas, aos consumidores e aos países importadores de petróleo. Algumas estimativas indicam que uma descida de 10 dólares no preço do barril de petróleo se traduz num aumento de 0,5% no crescimento económico nos países importadores de petróleo. O consumo nestes países deverá aumentar devido ao facto de os consumidores ficarem com mais dinheiro no bolso. Nos Estados Unidos, por exemplo, a redução do preço do petróleo a nível mundial, devido ao baixo nível de impostos indirectos, traduz-se rapidamente numa diminuição de preços nos postos de abastecimento, com o consequente aumento do consumo noutros sectores da economia. No Reino Unido, infelizmente, a situação é diferente, e os preços a nível mundial demoram mais tempo a repercutir-se no preço da gasolina.


Os países da OPEP vão reunir-se em Novembro, e desta reunião poderá resultar uma redução dos níveis de produção, o que poderá sustentar o preço do petróleo, embora seja pouco provável que este volte a subir para os 100 dólares. Há muitos economistas que prevêem preços a rondar os 90 dólares por barril nos próximos anos, uma situação que poderá continuar a beneficiar os consumidores e a estimular o crescimento económico global. 

 

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