Luis Nazaré
Luis Nazaré 14 de novembro de 2013 às 00:01

Nobre povo, nação valente!

É o segredo mais bem guardado do planeta. Nós, precisarmos de um novo programa de assistência? Nós, pensarmos numa reestruturação da dívida pública? Claro que não. Isso é coisa de masoquistas ou de incontinentes verbais.

1. É o segredo mais bem guardado do planeta. Nós, precisarmos de um novo programa de assistência? Nós, pensarmos numa reestruturação da dívida pública? Claro que não. Isso é coisa de masoquistas ou de incontinentes verbais. Qualquer criatura minimamente lúcida sabe que daremos a volta por cima. A economia está a recuperar, o desemprego a baixar, as medidas de austeridade a funcionar em pleno. A Alemanha está tranquila, a Comissão Europeia idem, a confiança dos mercados e das agências de notação em alta. Os portugueses voltaram a acreditar no Pai Natal. O que terá dado, então, ao ministro dos Negócios Estrangeiros? Quatro e meio por cento de juros para nos furtarmos a um qualquer programa de intervenção? Nem pensar. Seja qual for a taxa, cá estaremos para honrar os nossos compromissos.


Todos os analistas internacionais, os chief economists, os académicos de águas doces e salgadas, têm uma fé inabalável na competência da tríade. Felizmente que as declarações pouco patrióticas de alguns dirigentes políticos não passam as fronteiras do nosso protectorado. O que seria se as reflexões de Rui Machete chegassem a Londres, a Frankfurt, a Bruxelas, a Washington? De repente, os nossos amigos credores podiam acordar para algo em que nunca tinham pensado – Portugal aguenta uma dívida pública de 130% do PIB?

Cabecinha fria, é o que se pede. Eles bem sabem, lá fora, que os lusitanos são gente de bem. Podemos ter de emigrar, definhar, entristecer, quebrar os laços de solidariedade inter-geracional, mas incumprir nunca, nem num tostão. Não somos de defaults, isso é para gente pouco honrada como norte-americanos, alemães, islandeses e outras tribos bárbaras que, em momentos de aperto, tiveram o despudor de reestruturar. Nós, orgulhosamente intervencionados, pagámos sempre as nossas dívidas ao preço que nos exigiram. Connosco, os mercados financeiros não têm de se preocupar. Nação valente!

Pelo caminho, temos de fazer algumas purgas. Há por aí quem esteja a colocar a pulga atrás da orelha dos mandantes da tríade, despertando-os para uma falsidade – a insustentabilidade da nossa dívida. A Unidade Técnica de Apoio Orçamental (UTAO) é um desses agentes habilidosos, com disfarces de tecnicidade e independência (suspeito que o nosso ministro dos Negócios Estrangeiros tem ligações à UTAO). E uns tantos outros, vozes desgarradas mas perigosas, como Paul de Grauwe: "Portugal tem tanta austeridade que a dívida se tornou insustentável, algo tem de ser feito. Não acho que consiga sair do problema sem uma reestruturação da dívida. (…) Os portugueses estão a punir-se a si mesmos. (…) É difícil entender como pode o Governo magoar a população e sentir-se orgulhoso disso. (…) O governo português fez o grande erro de tentar ser o melhor da turma no concurso de beleza da austeridade. (…) Portugal e outros países do Sul da Europa deviam unir-se e dizer que a maneira como os tratam não é aceitável. (…) Vocês têm influência na Comissão Europeia, mas não a usam". Se mais não houvesse para detectarmos a falácia deste juízo, a afirmação de que Portugal não usa a influência que tem na União Europeia é esclarecedora – o comissário Durão Barroso é inquestionavelmente um português de gema.

Ora, estes registos descrentes e tendenciosos têm de ser exterminados. Há que manter um silêncio absoluto sobre a dívida. Nem falar de programas cautelares ou de reestruturação, que o mundo nos quer como sempre nos viu – cordatos e cumpridores. Qualquer estratégia comum com a Europa periférica é contra-producente. Siga-se a velha norma latina das infidelidades: negar até ao fim e manter o sorriso. E esperar que nenhum analista internacional tenha alguma vez lido ou sonhado que nós portugueses abdicaremos de ser nobres e imortais.

2. O actual director-geral das Artes (que não conheço) não vai poder candidatar-se ao lugar porque o concurso aberto pelo Governo exige uma licenciatura de pelo menos doze anos, e Samuel Rego só tem onze anos e dois meses de diploma. Desgraçada inconformidade, não é mesmo? Já para assessores, as regras são muito mais flexíveis. É a vida.

Economista; Professor do ISEG

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