Outros sites Cofina
Notícias em Destaque
Opinião
Sérgio Figueiredo 20 de Abril de 2006 às 13:59

Nossos bebés que choram

Saiba porque ele está chorando – era o título do artigo que abria a secção de economia da revista. A imagem dominante era um bebé. Que chorava. A revista era a brasileira «Veja». O artigo sobre um problema que podia ser português: o endividamento.

  • Assine já 1€/1 mês
  • ...

Exactamente, por detrás desse assunto tão impessoal e tão massador como a dívida pública escondem-se os nossos bebés, que choram por nascerem já endividados.

Choram, então, porque os seus pais gastam mais do que aquilo que irão conseguir pagar. Choram porque eles não fazem nada para corrigir essa caminhada para o abismo.

E choram sem ter a consciência de que, provavelmente, não terão a capacidade de suportar os impostos que seriam necessários para pagar as contas que lhes estamos a endossar. Dito de outra forma, mandam às urtigas os direitos adquiridos.

Toda a gente ama os seus filhos. Naturalmente. Mas está longe de ter percebido que contra eles abriu uma guerra. Não declarada, porventura não percepcionada, certamente não desejada. Mas que abriu, abriu.

A dívida pública já quase toca os 65% do PIB. A dimensão é impressionante. Mais penoso é ver que a tendência se inverteu e, para piorar, é saber que o buraco é ainda mais profundo.

Esta dívida pública «oficial», como sabemos, tem um perímetro limitado. Não conta, por exemplo, com as responsabilidades do Estado nas empresas públicas de transporte. Que, pelos cálculos do dr. Catroga, anda próximo dos 7% do PIB.

Nela não se reflecte igualmente os compromissos já assumidos (como as Scut) e os milhões em contratos de leasing operacionais (o reequipamento da Defesa). Pode então acrescentar mais 8% de PIB.

Ou seja, as contas públicas medidas numa perspectiva geracional apresentam já um nível de endividamento efectivo que não andará muito longe dos 80% do PIB.

É preciso dizer – e aqui vem a terrível questão da tendência – que nem sempre foi assim. Portugal entrou no euro porque, durante um bom período, o rácio da dívida esteve a decrescer.

E também é importante lembrar que isto não resulta de qualquer catástrofe natural, não é uma maldição, muito menos algo que esteja fora do alcance da capacidade humana.

A Espanha, só para dar um exemplo, tinha há vinte anos uma dívida pública superior à nossa e agora vai a caminho dos 40%.

Os nossos bebés vão parar de chorar no dia em que a despesa corrente primária crescer tendencialmente zero. Sabemos que está tendencialmente a afastar-se do zero. Ainda assim há quem pense que o Estado vai libertar recursos para financiar aeroportos na Ota e comboios de alta velocidade...

Um conhecido economista, observador da crise orçamental, concordava, não faz muito tempo, que a medida relevante para aferir a insustentabilidade das políticas era a dívida e não o défice.

Desempenhava então funções diferentes das actuais. Chama-se Fernando Teixeira dos Santos, que ontem, no American Club, aconselhou quem da plateia o questionou sobre Ota e TGV: não perca o sono com isso, porque não tem impacto nos orçamentos dos próximos anos.

Os filhos do ministro das Finanças já não são bebés. Mas vão chorar quando souberem o que o seu pai anda a dizer.

Ver comentários
Mais artigos de Opinião
Ver mais
Mais lidas
Outras Notícias