José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 07 de agosto de 2013 às 00:01

Novo Governo, fantasmas antigos

As finanças públicas continuam por consolidar; o deficit é cada vez maior; a dívida cresce todos os dias; o desemprego, a destruição de postos de trabalho, não param de aumentar; os portugueses estão todos os dias mais pobres e sem perspectivas

Penso que este novo Governo aparenta ser mais forte e consistente que o seu antecessor. Perdeu Vítor Gaspar, uma figura de referência, na fase final bastante inseguro e encerrado no seu próprio labirinto de uma corrente de pensamento conservadora inadequada. Mas em contrapartida ganhou talvez uma outra densidade, outra liderança e maior operacionalidade.


Sendo um governo, porventura, mais forte e também mais operacional – o fracasso confessado da fantasia populista dos megaministérios – existem duas vulnerabilidades que, cada dia que passa se torna mais urgente explicar: (i) a questão dos ‘swaps’ que, envolvendo a honorabilidade da ministra das Finanças e de um seu secretário de Estado, continua a ser uma história muito mal contada, com muitos esquecimentos estratégicos e muita truncagem de informação relevante; neste folhetim ridículo já ninguém sabe quem diz a verdade e até onde é possível falseá-la; (ii) as insinuações e acusações que são feitas a Rui Machete, precisamente o novo nome que traz mais peso a este Governo: alguns aspectos menos interessantes do seu currículo devem ser rapidamente esclarecidos, em vez de varridos para debaixo do tapete, sob pena da mácula ficar para sempre a pairar sobre o governante.

De resto, subsistem e agravam-se as confusões em torno de questões vitais para a nossa democracia, que permanecem como fantasmas a assombrar toda uma acção governativa: o BPN – quando se saberá alguma parte da verdade sobre o que se passou? – e o BPP, onde tudo parece esclarecido, mas nada tem andado em termos de ser feita justiça, porquê? Os corruptos vão ficar todos impunes? Vai esperar-se pacientemente, com a paciência de que só a justiça portuguesa parece dar mostras, que os processos prescrevam? Os beneficiários dos jogos de interesses que envolvem estes dois casos vão continuar a afastar as suas responsabilidades éticas? Os portugueses também vão ser considerados culpados destas actividades fraudulentas e vão ter de pagar a conta de milhares de milhões de euros? Recordo mais uma vez o tratamento dado ao caso Madoff nos EUA e o que se passa deste lado do Atlântico.

Por outro lado, este Governo, que nos promete um novo ciclo político-económico, nasceu da confissão de um fracasso. Nenhum dos objectivos que o anterior governo se propunha alcançar, foi conseguido: as finanças públicas continuam por consolidar; o deficit é cada vez maior; a dívida cresce todos os dias; o desemprego, a destruição de postos de trabalho, não param de aumentar; os portugueses estão todos os dias mais pobres e sem perspectivas. Com as políticas seguidas podia ter sido de outra forma? Claro que não, e são estes antigos fantasmas que continuam a assombrar a tão necessária mudança.

Prometendo-nos agora mudança de rumo, em pouco mais de 15 dias, a mesma maioria dá origem a um governo em que os principais protagonistas (os mesmo, quase) dizem pensar o contrário dos anteriores: os aumentos dos impostos até níveis insuportáveis; os cortes ‘a eito’; a obstinação pelos números gerados pelos fantasiosos modelos arquitectados, afirmando-se agora que se pretende saltar da austeridade para o crescimento. Embora se desconheça quase tudo do programa deste Governo, é legítimo interrogarmo-nos sobre o que iremos ter e qual a alternativa: mais austeridade como tudo leva a crer ou a inflexão prometida significa a adopção das políticas inscritas na moção que a Direcção do CDS ia apresentar ao Congresso entretanto adiado?

Nota: esta coluna que habitualmente é quinzenal, volta para a semana com a segunda parte desta crónica.

Economista. Professor do ISEG

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