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Jorge Marques 14 de Novembro de 2003 às 09:41

Novo discurso sobre a produtividade

A saída deste pântano terá a ver com aumentos de produtividade, mas já não a mesma produtividade. Tem que ser procurada nos serviços e nas áreas do conhecimento, numa nova forma de trabalhar mais inteligente, de gerir e liderar as pessoas e o trabalho.

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Presumo que o início de época, para além dos habituais discursos políticos, nos traga também a famigerada discussão sobre a produtividade portuguesa, sobretudo no que se refere à apresentação do estudo da Mckinsey, que foi revelado na última semana de Julho.

Independentemente da validade do estudo, que não conheço nos seus detalhes, de repente parece que o bode expiatório deixou de ser o trabalhador português e passou a ser o Governo, este e os outros, passados e futuros.

A avaliar por essas conclusões, os responsáveis pela falta de produtividade são a economia paralela, a burocracia, a administração pública, a regulação e regras do mercado, as leis laborais e o perfil da nossa indústria. Quase tudo isto, como se vê, da responsabilidade dos governos. E isto significa o quê? Significaria, a ser verdade, que então o problema da produtividade não teria solução de curto/médio prazo, porque estariam em jogo reformas estruturais que não vão acontecer tão cedo. Não sei se a intenção da mensagem é essa?

Claro que existem outras leituras sobre o assunto, pois as conclusões deste estudo, de facto, são já nossas conhecidas há muito tempo.

O que se passa, é que quando andamos a falar de produtividade, falamos de um tipo de conceito passado nos últimos cem anos, quando nos referíamos à produção, onde se verificavam aumentos anuais na ordem dos 3 a 4 %, o que significou, nesse período, crescimentos de cerca de 40 vezes ou mais.

Estes valores estão a alterar-se, porque os sectores industriais são cada vez menores e pesam menos na economia. A questão actual é que a produtividade dos serviços e do conhecimento é que é baixa, é aí que está o problema, isso inclui a Administração Pública, que entre nós tem um peso excessivo.

A história pode servir para muito pouco, mas se repararmos em 1880, salvaguardadas as devidas distâncias, o panorama não era tão diferente do que é hoje, com conflitos sociais mais agravados, mais radicalizados. Mas como se sabe, já nessa altura se verificou, que nem o capital, nem a tecnologia fizeram por si só os aumentos de produtividade que eram necessários.

Esse aumento só se verificou, quando Taylor apresentou uma nova forma de trabalhar. Foi isso que deu a volta à crise, por muito que isso seja discutível a esta distância.

Por isso, a saída deste pântano, terá certamente a ver com aumentos significativos de produtividade, mas já não a mesma produtividade, esta tem que ser procurada nos serviços e nas áreas do conhecimento, tem que ser procurada numa nova forma de trabalhar mais inteligente, numa nova forma de gerir e liderar as pessoas e o trabalho.

Tal como nos finais do século XIX, agora por maioria de razão, o capital e a tecnologia não vão substituir o trabalho, nem por si mesmas vão gerar mais produtividade. Digo por maioria de razão, porque os aumentos substanciais de produtividade tem que se verificar nos serviços e no conhecimento, onde a matéria prima é a inteligência. Por isso, a questão essencial neste momento é procurar e adoptar formas mais inteligentes de organizar e gerir o trabalho. Isto também, porque tal como no período pré-Taylor, o que se passa nesta matéria é um verdadeiro desastre. A questão agora, está em gerir de forma inteligente, pessoas inteligentes, nas empresas e na administração pública.

E a questão central é sempre a mesma, temos que regressar ao valor da tarefa, daquilo que efectivamente se faz e acontece na realidade e agora entendemos chamar competência.

É que as pessoas nas empresas e demais organizações, a começar pelos gestores ao mais alto nível, não estão concentrados na sua tarefa, estão dispersos por actividades que não acrescentam qualquer tipo de valor, estão mais preocupados com a manutenção de um estatuto que já não faz sentido.

Quando quisermos falar de produtividade, temos que lhe associar automaticamente, qualidade, clientes, criação de valor... pessoas, uma cultura de desempenho! Por isso é que eu acho que não andamos a falar de produtividade, mas de um fantasma!

consultor SerH

docente universitário

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