Rui  Peres Jorge
Rui Peres Jorge 20 de abril de 2014 às 18:30

Números errados, ideias erradas

Uma condição para discussão séria é conhecer a realidade e para isso é essencial informação fiável e rigorosa. Infelizmente, esta nunca foi uma prioridade para o Governo. É impossível, por exemplo, saber quanto rendeu efectivamente cada uma das medidas de austeridade dos últimos três anos, existindo apenas estimativas iniciais e alguns números soltos.

 

O problema é de tal forma grave que nem mesmo o primeiro-ministro parece saber muito bem as contas da sua austeridade. As consequências, como nos mostra o passado recente, podem ser graves.

 

Vem esta reflexão a propósito da forma convicta como o primeiro-ministro afirmou na semana passada, em entrevista à SIC, ter conseguido cortar 1,6 mil milhões de euros na despesa com consumos intermédios entre 2010 e 2013. A afirmação pretendeu validar o plano do Governo de poupar 1,2 mil milhões de euros nestas despesas em 2015, para assim cumprir a redução do défice público para 2,5% do PIB. 

 

Mesmo que os números do primeiro-ministro reflectissem o resultado desde 2010, o objectivo do próximo ano pareceria exagerado. Acontece que não é assim. Como noticiámos na quinta-feira, metade dessa redução deveu-se ao empolamento da despesa em 2010 com a compra de dois submarinos (que por regras contabilísticas europeias foram registados como consumo intermédio e não investimento). Ajustado esse efeito, o corte nesta rubrica da despesa pública - que é mais vezes associada às "gorduras do Estado" - ficou-se pelos 800 milhões de euros. Não admira que poucos acreditem nos planos do Executivo para 2015.

 

No início do programa de ajustamento, em Abril de 2011, ainda antes de ser primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho garantiu aos funcionários públicos que não necessitaria de lhes cortar mais salários, nem despedir. "Temos de ser efectivos a cortar nas gorduras", dizia então, aparentemente acreditando que "a austeridade seria para o Estado" e que isso chegaria. Entretanto cortou não só salários a funcionários como tentou encontrar forma de os despedir, reduziu pensões e aumentou o IRS em 30%.

 

Nunca saberemos ao certo se o primeiro-ministro cedeu a tentações eleitorais em 2011 ou se pura e simplesmente desconhecia o plano de ajustamento da troika e as limitações da poupança com as "gorduras no Estado". Vê-lo voltar a essa história de fadas de grandes reduções de défice com base em ganhos de "eficiência", menos "consultoria" e muitas "fusões" causa inevitavelmente calafrios - especialmente se considerarmos que três anos depois parece ainda não dominar o assunto em que depositou tanta esperança. Se desta vez, o primeiro-ministro errar, já não terá desculpa. Pois como disse, e bem, "às vezes criam-se ideias que não são correctas".

 

Visto por dentro é um espaço de opinião de jornalistas do Negócios

 

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