Manuel  Falcão
Manuel Falcão 07 de dezembro de 2018 às 11:43

O adubo populista

Afinal, porque cresce o populismo? O aumento do peso político do populismo está na proporção directa das revelações sobre corrupção, da ineficácia da justiça, da forma de funcionamento dos partidos institucionais, do funcionamento dos parlamentos, do comportamento de muitos políticos.

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O telescópio faz encolher o universo, o microscópio aumenta-o.
G.K. Chesterton

O adubo populista
Afinal, porque cresce o populismo? O aumento do peso político do populismo está na proporção directa das revelações sobre corrupção, da ineficácia da justiça, da forma de funcionamento dos partidos institucionais, do funcionamento dos parlamentos, do comportamento de muitos políticos. O populismo que assume proporções preocupantes é o resultado directo da falência dos partidos mais presentes no poder, das jogadas de bastidores e entendimentos à revelia dos resultados eleitorais, dos arranjinhos e distribuições de benesses. O adubo que fomenta o populismo está no apodrecimento do sistema. O retrato do futuro próximo um pouco por toda a Europa é dado pelo que se passou na Andaluzia: o descrédito no regime leva a deslocações surpreendentes de voto - analisando os resultados, constata-se que foi do eleitorado do PSOE que saíram maioritariamente os votos que deram entrada aos populistas de direita. Não precisamos só que surjam novos partidos, precisamos fundamentalmente que exista uma nova ética política e uma outra agilidade da justiça. No caso português, precisamos de um sistema eleitoral que possibilite a entrada de novos participantes, precisamos de uma varridela nos partidos antigos que acabe com os escândalos que se têm passado na Assembleia da República e que andavam bem escondidinhos da vista de todos. Deixaram alastrar a vigarice, não se queixem do resultado. O mundo já não é feito de dogmas. Os partidos e quem os dirige não se podem julgar donos da verdade depois de terem sido apanhados tantas vezes a mentirem.

Semanada
Mais de 57 milhões de seringas e mais de 30 milhões de preservativos foram distribuídos nos últimos 25 anos em Portugal o ministro do Ambiente preconiza uma redução de entre 25 e 50% da população de bovinos como uma das medidas para reduzir as emissões poluentes de gases para a atmosfera quase metade das instituições portuguesas de solidariedade social têm prejuízos graves a não actualização dos escalões do IRS no Orçamento do Estado vai causar um aumento deste imposto em 2019 os futuros pensionistas só vão receber 74% do salário que tinham à data do início da reforma, indica um relatório da OCDE Guarda, Portalegre e Bragança são os distritos com menor número de nascimentos. E Lisboa, Porto e Braga são os que registam natalidade mais elevada; mais de 150 mil crianças e jovens não têm médico de família o Tribunal de Contas criticou as regras da Assembleia da República e diz ser impossível fiscalizar se os pagamentos feitos aos deputados são devidos o presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, admitiu, ao fim de algumas semanas, ter havido irregularidades e "registo de presenças falsas" de deputados em sessões plenárias do Parlamento.

Dixit
"Neste tempo de guerras civis nas redes sociais, em que o Facebook e Google lêem por nós, é bom ler e escrever. (...) É do confronto de ideias que nasce a liberdade, a democracia política, económica, social e cultural."
Fernando Sobral
no derradeiro "Pulo do Gato"

Escritos turísticos
Não é inédito: uma publicação periódica vai melhorando depois do primeiro número, afinando detalhes e estabelecendo a sua própria identidade. No caso de Electra, a revista editada pela Fundação EDP e dirigida por José Manuel dos Santos, identidade ideológica é coisa que não falta. Mas, nos primeiros dois números, houve alguma indefinição de temas, alinhamento e problemas gráficos. Neste terceiro número há um salto qualitativo - quer a nível da diversidade de conteúdos, do alinhamento editorial, quer a nível gráfico e da edição fotográfica. O tema central desta edição é o turismo nos tempos actuais e o geógrafo Álvaro Domingues, em "Turismo On Fire", aborda a evolução dos tempos, desde a viagem elitista à viagem democratizada pelo turismo massificado. Jean-Didier Urbain aponta que o turista actual é um viajante maltratado e considera que o turismo no nosso tempo não deve ser desclassificado, mas sim encarado como uma verdadeira experiência de viagem, tese criticada por Thierry Paquot, que defende ser urgente interromper o movimento crescente do turismo mundial, negando que o passeio turístico tenha agora alguma coisa a ver com o conceito de viagem. O arquitecto Pedro Levi Bismarck tem uma certeira observação sobre os efeitos do turismo nas cidades contemporâneas e o economista Álvaro Matias faz uma análise dos negócios gerados pelo turismo, que classifica como uma exportação fácil. Turismo à parte, destaque para um livro de horas de Pedro Cabrita Reis, sob a forma de fac-símile de nove páginas da sua caligrafia e desenhos, a tinta-da-china sobre papel, que exemplificam alguns dos seus registos diários. Finalmente, uma menção ainda para o texto de Rui Chafes sobre as esculturas de Manuel Rosa, artista que, ao fim de vários anos, resolveu expor de novo as suas obras.

Distracções estatais
O Estado português perdeu o rasto a cinco jovens romenos que tinha à sua guarda, depois de os seus pais, que obrigavam os dois rapazes e três raparigas a mendigar, terem sido presos.

Bolsa de valores
Na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12), além das fotografias da exposição "Trinus", de Cláudio Garrudo (que estão à venda por 1.100 euros), está disponível uma edição especial do catálogo, limitada e numerada, em caixa de madeira, com uma prova assinada de uma das imagens, por 185 euros.

Viagens fotográficas
Há uma fotografia que mostra a realidade e outra que alimenta a ilusão. Cláudio Garrudo, que tem vindo a experimentar diversas abordagens à imagem fotográfica (numa sua recente exposição, utilizou cianótipos), encarou agora o mar e utilizou uma técnica de duplas exposições que cria uma dimensão muito especial nas imagens e uma ilusão, quer de cores, quer de perspectiva. A exposição leva o nome de "Trinus" (na imagem) e está na Galeria das Salgadeiras (Rua da Atalaia 12) até dia 19 de Janeiro.

A exposição, nove fotografias e um vídeo, resulta de uma viagem que Cláudio Garrudo fez a bordo de um carregueiro, que zarpou de Lisboa. "Viagem", um poema de Miguel Torga, foi o ponto de partida para esta expedição. Bem diferente é uma exposição no Arquivo Municipal Fotográfico, centrada no espólio de Helena Côrrea de Barros, e que é uma viagem à sua família e amigos, mas também uma mostra de trabalhos que ela apresentou a salões fotográficos, comuns nos anos 50 e 60. A exposição, "Fotografia, A Minha Viagem Preferida", que fica patente até 23 de Fevereiro, foi organizada de forma exemplar por Luís Pavão e Paula Figueiredo Cunca, mostrando um lado da realidade do Portugal dos anos 50 e 60 que separa a visão familiar e festiva feira a cores, em Kodachrome, da prática artística de Helena Côrrea de Barros, a preto e branco, feita para os salões de fotografia de então. Na Rua da Palma, 246.

Edição especial
Em Janeiro deste ano, foi editado "Nação Valente", o primeiro disco de originais de Sérgio Godinho dos últimos sete anos - um álbum com nove originais e uma versão de "Delicado", um tema de Márcia, intensamente interpretado por Godinho. Na altura escrevi aqui que este era o melhor disco do autor neste século e destaquei o tema "Grão da Mesma Mó", um poderoso manifesto com letra de Godinho e música de David Fonseca. Na mesma altura, sublinhei que outro ponto alto é "Maria Pais, 21 Anos", onde as palavras de Godinho se cruzam mais uma vez com as ideias musicais de José Mário Branco naquela que é certamente a mais elaborada e emocional composição deste disco, não por acaso uma espécie de retrato de uma geração para a qual ambos os autores olham com um agudo espírito de observação. Agora, "Nação Valente" teve uma edição especial, com um CD extra gravado ao vivo nos Coliseus de Lisboa e do Porto e que inclui algumas das canções de Nação Valente tocadas ao vivo, com arranjos diferentes da gravação de estúdio, mas também interpretações novas de temas clássicos de Sérgio Godinho, entre os quais destaco "Balada da Rita", com a participação de David Fonseca e o magnífico "Às Vezes O Amor", com a participação de Márcia. CD Duplo Universal Music.

Um clássico lisboeta
O Petite Folie é um restaurante com uma história longa - no início dos anos 1980, abriu inspirado pela cozinha gaulesa, por iniciativa de uma francesa que vivia em Lisboa e que queria aumentar a então reduzida oferta gastronómica do seu país em Lisboa. Passados uns anos, decidiu sair e o restaurante passou para as mãos de Almerindo Gonçalves, um minhoto com uma longa carreira na hotelaria e na restauração e que saiu do então prestigiado Clube de Empresários para abrir uma casa só sua em 1988. Manteve o nome francês, mas trouxe a comida portuguesa, sobretudo alguns pratos da sua região de Monção - como a lampreia na época em que é devida. Com uma decoração clássica e muito bem conservada, na qual a madeira predomina, tem um serviço único, um cruzamento de profissionalismo e gentileza. Um dos seus pratos mais apreciados - e estamos na altura ideal do ano para ele - é a perdiz à Convento de Alcântara, e outro muito apreciado é um folhado de lebre com castanhas. No peixe, destaca-se a garoupa grelhada com molho de alcaparras e os supremos de cherne com molho de champanhe. Se quiser uma coisa mais simples, tem sempre o entrecôte à Café de Paris. Nos doces, o leite-creme queimado tem boa fama. O Senhor Almerindo Gonçalves sabe receber como poucos e, nas mesas, o Senhor Artur garante uma atenção rara nos dias que correm. Garrafeira a preços sensatos, vinho a copo bem escolhido. Fechado ao sábado e ao domingo ao jantar. Petite Folie, Av. António Augusto de Aguiar, 74-cv, telefone 213 141 948.