Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 02 de abril de 2018 às 21:10

O Bloco e o PCP também são Centeno

Somos todos Centeno, disse o ministro da Saúde à oposição, quando esta lhe deu a oportunidade de, por alguma via, se afastar da autoria das cativações e cortes que têm conduzido o SNS a uma situação de quase colapso.

Esteve bem na resposta, o ministro, afastando a ideia, popular em alguns sectores, tentadora noutros, de um ministro da Saúde acossado pela voracidade de um ministro das Finanças. E como poderia ser de outra forma, se os dois são ministros do mesmo Governo, se aceitam, elaboram e colocam à votação o mesmo Orçamento, se apresentam ao país o mesmo compromisso, as mesmas opções?

 

Como é evidente, todos os ministros são Centeno, porque todos aceitam as escolhas que, no âmbito do dilema orçamental, têm apresentado ao país: a escolha pelo corte e pelas cativações nos serviços públicos para sustentar a reposição mais veloz de rendimentos, a escolha pela redução substancial do défice para haver espaço para fazer chegar dinheiro à banca pública.

 

A frase do ministro da Saúde foi por isso rigorosa, corajosa, verdadeira, assumindo as suas responsabilidades e as suas escolhas. Escolhas que nunca são fáceis, levianas. Num país com tantas dificuldades e tanta dívida, só os populistas acham que é fácil governar, optar, só os populistas acham que há escolhas óbvias, evidentes, só os populistas acham que há forma indolor de levar o barco a bom porto.

 

Assumir a responsabilidade pelas escolhas não significa, pois, dizer que elas são ótimas, ideais, indolores. Significa apenas ter a coragem de dizer que, de entre as possíveis, que nunca são ótimas nem ideais nem indolores, essas são as escolhas feitas, assumidas.

 

Mas se o ministro demonstrou uma atitude rigorosa - ainda que, pelo caminho, o que se percebe, tenha tentado negar, aí com menos rigor, a evidente degradação do SNS que tutela -, o mesmo não pode dizer-se dos restantes partidos que aprovam sucessivamente os Orçamentos deste Governo e que, através dessa aprovação, com eles concordam e a eles aderem.

 

À primeira queixa popular, à primeira evidência de corte nos serviços públicos, ao primeiro sinal de falta de assistência a quem precisa, PCP e Bloco de Esquerda fingem não ter concordado com nada, passam para a bancada da oposição, chegam a juntar-se a protestos, numa atroz hipocrisia que muitos não se importam de tolerar, numa evidente cobardia que para nada os recomenda.

 

Dir-se-á, muito gente diz aliás, que PCP e Bloco não são Governo, que não podem ser responsabilizados por tudo o que por este é feito.

 

Sucede que o Orçamento do Estado é votado, negociado, trabalhado, afinado e melhorado no Parlamento. É competência da Assembleia, aliás. E é por isso que PCP e Bloco de Esquerda são, para todos os efeitos, tão ou mais Centeno do que o ministro da Saúde.

 

É que ao contrário do ministro da Saúde, que pode demitir-se ou ser demitido sem que tal gesto provoque a queda do Governo, o que lhe retira poder negocial na hora de aprovar o Orçamento, PCP e Bloco de Esquerda têm nas suas mãos a sobrevivência deste Governo, estão em condições de impor as suas exigências, as suas prioridades: sem eles não há Orçamento do Estado, e sem Orçamento não há Governo.

 

Todas as opções orçamentais do Governo existem porque PCP e Bloco de Esquerda não se opuseram a elas, as não consideraram suficientemente relevantes para serem motivo de rejeição do Orçamento, as não julgaram prioritárias na hora de impor as suas condições para viabilizar o documento.

 

Há por isso mais gente que é Centeno. Há, desde logo, 19 deputados do Bloco de Esquerda e 15 deputados do PCP que também são Centeno, e a quem falta a coragem de dar a cara pelas suas opções, de assumir o relaxamento quanto ao que deixam passar, de serem verdadeiros na hora de se apresentarem aos portugueses.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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