João Quadros
João Quadros 17 de abril de 2015 às 09:55

O bom, o mau e o risco

"A CMVM arrasou o Banco de Portugal e defendeu o pagamento na íntegra do papel comercial do BES."

 

"A CMVM arrasou o Banco de Portugal e defendeu o pagamento na íntegra do papel comercial do BES." No documento, a que vários jornais tiveram acesso, Carlos Tavares desmonta os argumentos do BdP e diz que os clientes de retalho devem receber na íntegra - só faltou tirar a idoneidade a Carlos Costa. Aliás, segundo o que vem no relatório de Carlos Tavares, eu evitava ir ao aumento de capital do Banco de Portugal. Perante aquele documento, não estou a ver ninguém investir numa eventual recandidatura de Carlos Costa ao cargo.


Começo por deixar aqui a minha declaração de intenções: não tenho nenhuma. Nunca tive papel comercial - ou não - do BES, do GES, ou seja do que for. As únicas acções que possuo são do SCP e foram-me "vendidas" pelo Santana Lopes (através de uma quota extra). Portanto, dão tão pouco crédito como são credíveis.


Segundo o que me é dado a ver, a opinião pública - excluindo os que foram ao aumento de capital - está relativamente dividida em relação a este assunto. Se, por um lado, há quem diga "coitados, foram enganados, deviam ser compensados", por outro, há os que rangem os dentes e dizem "quiseram ir à ganância, correram riscos, arderam!"


A ideia que por aí anda é que papel comercial é papel de risco mas, no meu entender, que não é dos melhores entenderes, há uma grande diferença entre: a) investir, correr o risco e falir; b) investir no que já estava falido.


Repare, o ainda estimado leitor, que na alínea b) já não aparece a palavra risco porque, realmente, aqui já não faz sentido falar em risco. Normalmente, ninguém diz "vou saltar desta janela do trigésimo andar e é arriscado". Se não estou enganado, nunca ouvi ninguém dizer que existe risco de incêndio num prédio que está a arder de alto a baixo.


Risco presume que existe a possibilidade de sucesso ou não. Deitar dinheiro para um precipício só seria risco se houvesse a hipótese do eco nos devolver pelo menos metade. Não sendo assim, não é risco. É apenas suicídio financeiro. Neste caso, foi suicídio assistido, com Costa a fazer de médico e Tavares de enfermeiro.


Resumindo, se estava falido e, na prática, já não existia, não devia ser possível investir. Ninguém em sã consciência vai ao balcão do banco trocar euros por notas de monopólio. Se estas transacções ao balcão do ex-BES - hoje Novo Banco - fossem feitas num monte alentejano, com pessoas de idade, era crime e mandavam chamar a GNR. Como foram feitas ao balcão de um banco, por pessoas de fato e gravata - com o carimbo de pessoas com melhor fato e gravata - é risco.


Conclusão, considerar a venda de cocó ao balcão de um banco como um risco, e não uma aldrabice, é uma visão arriscada porque se a PSP tiver a mesma sagacidade que o regulador e o controlador do Mercado, corremos o risco de, um dia destes, não conseguirem evitar que entre uma pessoa de caçadeira no Novo Banco disposta a arriscar tudo por não ter nada a perder.

 

 

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Meia dúzia de engandos ao balcão

 

1 Passos Coelho: "Chega de relembrar a austeridade" e a Tecnoforma e a Segurança Social e o desemprego, esqueçam tudo que vêm lá eleições.


2 Guterres reafirma indisponibilidade para a Presidência - má notícia para o PS e péssima para os refugiados.


3 Segundo a defesa, Sócrates recebia dinheiro em mão porque sentia a "crise de confiança no sistema bancário" - mas tinha confiança no Salgado.


4 Passos: "Muito já foi feito na Educação, mas é preciso continuar". Basta ver as chamadas telefónicas dos envolvidos no caso dos vistos "gold".


5 Investidores pagam a Portugal na dívida de curto prazo - nunca o lixo foi tão bem visto.


6 Porto vence Bayern de Munique por 3-1 - Quaresma é o novo Varoufakis.

 

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